André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

'Vamos olhar o fiscal e a inflação', afirma a presidente

Dilma se compromete com ‘dever de casa’ e rebate críticas de que tenha cometido ‘estelionato eleitoral’

Tânia Monteiro e Marcelo de Moraes, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2014 | 17h13

Atualizado às 23h41

Brasília - Sorridente, a presidente Dilma Rousseff entra numa das salas do Palácio do Planalto para se encontrar com os jornalistas do Estado, Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, em entrevista convocada após a reeleição. Levou menos de dez segundos para dar a primeira bronca nos assessores. “Vocês escolheram uma sala que só tem cadeiras? Não tem uma mesa aqui? Vamos trocar agora”, ordenou, já conduzindo os jornalistas para outro ambiente do Planalto.

Recuperada de uma febre que a derrubou em três dos quatro dias que tirou de folga na Bahia, após sua vitória, Dilma reconhece que terá pela frente uma tarefa muito complexa para lidar com a inflação e promover o crescimento econômico do País depois dos números extremamente modestos apresentados durante seu primeiro mandato.

Com o objetivo de dar o recado que o mercado aguarda e responder às críticas sobre descontrole das contas públicas, Dilma prometeu “reduzir gastos” e “apertar o controle da inflação”.

A presidente reconheceu que o governo “tem de fazer o dever de casa” para conter o aumento dos preços e afirmou que “tem esperança de que o Brasil terá uma recuperação da economia em 2015”, embora ressalte que não exista “receita prontinha” para isso. Dilma avisou que “vai olhar o fiscal e a inflação”. E anunciou que, ao contrário do que pregava a oposição, não vai mexer nem no centro nem no intervalo da meta da inflação.

“Eu não pretendo mexer em intervalo de tolerância de inflação. O que eu pretendo é reduzir a inflação, e não reduzir a meta da inflação. Reduzir a inflação com recurso fiscal e menos monetário”, declarou a presidente, esclarecendo que essas políticas vão levar em conta a taxa de desemprego.

Dilma reconheceu que existe “problema interno” no País com a inflação e negou que tenha cometido “estelionato eleitoral”, como criticou a oposição após o resultado do 2.º turno, por causa de medidas como aumento dos juros . “Por quê? Eu não concordo com isso, não. Eu não estou dizendo que vou fazer o arrocho que eles falaram que iam fazer. Pelo contrário, estou dizendo que vou manter emprego e renda. Eu não falei que vou reduzir meta de inflação, e eles plantaram isso em prosa e verso. E tampouco concordo com choque de gestão. Eu sei o estelionato que choque de gestão é”, afirmou.

A presidente também anunciou que vai promover a discussão sobre a regulação econômica da mídia. Ela diz que não se trata de interferência em conteúdo ou censura. E avisa que deve abrir as discussões públicas, pela internet, no primeiro ou segundo trimestre.

Inflação. “Os emergentes (países) têm espaço para voltar a crescer. E nós vamos fazer o dever de casa. Vamos apertar o controle da inflação. Nós vamos olhar o fiscal e nós vamos olhar a inflação. Nós acreditamos também que não teremos choque de oferta, como tivemos em alimentos, nem choque, como tivemos, por conta da seca. A gente não pode menosprezar o nível de seca que tivemos, a maior em 80 anos. Eu não pretendo mexer em intervalo de tolerância de inflação. Não pretendo fazer isso. Nem no centro. O que eu pretendo é reduzir a inflação e não reduzir a meta da inflação. Reduzir a inflação com recurso fiscal e menos monetário. É isso. Eu não falei que vou reduzir meta de inflação e eles plantaram isso em prosa e verso E tampouco concordo com choque de gestão. Eu sei o estelionato que choque de gestão é. Nós vamos ter limites dados pela nossa restrição fiscal para fazer toda uma política anticíclica, que poderia ser necessária agora (...) Vamos fazer uma política de inflação que leva em conta o fato que não vamos desempregar nesse País.”

Ministério da Fazenda.

“Eu tive um telefonema do (Luiz Carlos) Trabuco (presidente do Bradesco) muito gentil, me cumprimentando pela minha eleição. Também (recebi um telefonema do) Abílio Diniz e (de) vários outros empresários. Eu pretendo fazer o anúncio da minha equipe econômica, ao voltar do G-20. Nas semanas seguintes, com vários ‘s’. Quero lembrar que não tinha dado prazo nenhum. Eu conversei uma vez com Trabuco. Eu não minto. Neste telefonema ele me disse simplesmente que me cumprimentava e que, como sempre que tinha feito ao longo de todo o processo, que estava disponível para ajudar no que fosse necessário, não significando que estava se oferecendo para nada. Estava sendo gentil, da mesma forma que outros tantos. Eu não conversei com ninguém a esse respeito. Eu não fiz nenhum convite sobre este assunto.”

‘Estelionato eleitoral’. “Não concordo com isso. Não estou falando que vou fazer o arrocho que eles falavam. Pelo contrário, estou dizendo que vou manter o emprego e a renda. Não falei que vou reduzir meta de inflação. E eles cantaram isso em prosa e verso. E tão pouco concordo com o choque de gestão. Eu sei o estelionato que choque de gestão é.”

‘Não represento o PT’.

“Eu não represento o PT. Eu represento a Presidência da República. E a opinião do PT é uma opinião do partido. Não me influencia. Eu não sou presidente do PT. Sou presidente dos brasileiros. E acho que o PT, como qualquer partido, tem posição de partes e não do todo. É deles, é típico. E acho que esta questão das eleições, que o PT queixa que houve xingamentos, agressões, na verdade, as duas partes reclamam das mesmas coisas. Não deveria caber a mim - e não cabe - e acho que não deveria também caber ao adversário porque, se a gente tiver um pingo de cabeça fria, a gente vai ver que em uma eleição ninguém controla o que se diz nas ruas e muito menos nas redes sociais. Só se controla o que nós mesmos dissemos.”

Não sou a cocada preta. “Quando encerra uma eleição e se elege um governador, um prefeito e um presidente, é obrigação deles ser o presidente de todos os eleitores e mesmo daqueles que não votam. Na democracia, é tão difícil saber ganhar quanto saber perder. Tem horas que até eu acho que é mais difícil saber perder. Mas saber ganhar também é muito difícil porque há uma tendência das pessoas que ganham achar que quando ganham, são os reis da cocada preta. E não são. Quando você ganha um processo eleitoral, você tem de ter consciência de que, a partir dali, a sua responsabilidade é para com toda a sociedade.”

Diálogo. “Me perguntaram o diálogo é sobre o que? Só tem diálogo sobre coisas concretas. Eu não estou propondo nenhum diálogo metafísico. Quem sou? Para onde vou? Qual o segredo da felicidade? Eu não estou propondo isso. Diálogo, quando se fala em política, está se discutindo sobre coisas concretas. A minha proposta s sobre educação é esta. Quais são os pontos em comum que nos podemos levar juntos? Eu vou ter diálogo com governadores de oposição e governadores de situação. A minha relação com ambos vai ter de ser de parceria.”

Regulação econômica da mídia. "Eu defendo a liberdade de expressão e ela não é só liberdade de imprensa, mas é o direito de todo mundo que tiver uma opinião, mesmo que você não concorde com ela, ele tem direito de expressar. Tem direito de se expressar até contra a democracia. Outra coisa diferente é confundir isso aí com regulação econômica, que diz respeito a processo de monopólio ou oligopólios que pode ocorrer em qualquer setor econômico, onde se visa o lucro. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) está aí para isso em qualquer setor. Mas qualquer outro setor, como transportes, energia, petróleo... tem regulações e a mídia não pode ter? Estou falando sobre o que ocorre em muitos países do mundo. Centros democráticos. Ou alguém desconhece a regulação que existe nos Estados Unidos? Desconhece a regulação na Inglaterra? Do meu ponto de vista, é uma das mais duras. Estou dando dois exemplos de situações que não temos que ser iguais. Não quero para nós uma regulação tal qual a americana.

A discussão não se refere só a propriedade cruzada. Você tem hoje, inclusive, um desafio. Ver como é que fica a questão na área das mídias eletrônicas. O que é livre mercado total? Aonde que é? Acho que tenderá a ser livre mercado rede social. Aí teria que fazer uma discussão mais complexa sobre imprensa escrita. Essa discussão sobre qual o destino da imprensa escrita. Vocês sabem disso. É uma discussão no mundo. O New York Times discute isso. Estou falando aqui sem reflexão profunda sobre o fato. Mas acredito que nesse caso tenderá a ter uma liberdade (econômica) maior pela dificuldade dos órgãos de sobreviverem. Acho que o conceito de oligopólio e monopólio terá que ser discutido, sobretudo o que é concessão. É onde que você tem que olhar. Quando discutimos isso não estamos pensando na Rede Globo. Ela está mais diluída. Não acho que a Rede Globo é o problema. Isso é uma visão que eu acho velha sobre o que é a regulação da mídia. Velha. Porque é a gente estar demonizando uma rede de televisão. Quando você tem que ter regras que valham para todo mundo. Não só para eles. Não só não misturo essa discussão com mecanismos de censura, como repudio. Eu não represento uma parte. Eu quero representar o todo. E isso jamais poderá ser feito sem uma ampla discussão da sociedade. É o tipo da coisa que exige uma consulta pública."

Democracia. “Eu acredito que a minha geração tem um compromisso básico com a democracia. E na democracia, até quem defende o golpe pode falar. Na ditadura, quem ousar falar em democracia, dá cadeia. Meu compromisso com as instituições é o compromisso com a democracia. Eu considero fundamental a separação dos poderes. Nós que somos democratas temos de respeitar que há uma independência entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. E essa independência não é para um ficar criando dificuldade para os outros. Os poderes têm de se respeitar e se harmonizar. Eu acredito que a democracia no Brasil se aprofundou, apesar de nós não termos muito tempo de democracia. Nossas eleições são produto desta democracia. Os momentos pós-eleitorais implicam, necessariamente, em se saber que o eleitor não é de ninguém, ninguém é dono do eleitor. Na democracia é um homem, uma mulher, um voto. Se tem um momento em que todos somos iguais é na frente da urna. Esta visão de que o eleitor é meu, é uma visão ultrapassada e patrimonialista.”

Bolivarianismo. "É uma vergonha tratar os dois países como iguais. É uma excrescência porque não tem similaridade. Essa história de bolivarianismo está eivada de camadas, segmentos, de preconceito, contra o meu governo. Geralmente o uso ideológico de certas categorias, distorcem toda a compreensão da percepção da realidade. Se tem uma que é usada indevidamente chama-se bolivarianismo. O mais estarrecedor é que eu cheguei à conclusão de que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), integrado pelo PIB brasileiro, é bolivariano. Acusaram o governo de estar fazendo com a questão da participação social bolivarianismo. Os órgãos de participação vem desde 1935. Aí você pega o decreto (que regulamenta a criação dos conselhos populares e foi derrubado na Câmara na semana passada) e chama de bolivariano?”

Seca. “Tudo indica, até agora, e a gente não sabe porque não tem bola de cristal, que os anos de seca mais duros que o País passou podem - porque em matéria de clima a gente fala podem - estar acabando. Achamos que haverá uma tendência de redução da seca no Nordeste e mesmo no Centro-Oeste e Sudeste.”

Térmicas. “Vocês acham que as térmicas não foram pagas. Nós pagamos elas. Um dos gastos que tivemos este ano no Orçamento é o pagamento delas. E acho interessantíssimo. Nós estaríamos hoje com o Brasil na situação de São Paulo se não tivéssemos 20 mil megawatts de térmicas que temos. Quando houve o apagão, se tinha 4 mil era muito. A consequência para qualquer sistema em que você prevê o risco é que você paga por isso. Se você quer reduzir o risco, você paga por isso. Em qualquer sistema é assim. A nossa sorte é que o sistema elétrico brasileiro não tem hoje similaridade com o que foi. Se você tem hoje condições de despachar térmicas na base e manter com o nível de seca que temos, com o País funcionando e sem problema de abastecimento, deve-se ao fato que a gente investiu e providenciou.”

Tarifaço. “Essa conta foi paga ao longo desse ano todo. Mas olhem o nível do aumento das tarifas de energia. Existe aquela história do represamento de tarifas. Onde é que está o tarifaço? Ele já aconteceu. Essa história que nós represamos é lorota. Ao longo do ano inteiro, houve pagamento pelo uso das térmicas. O governo fez o quê? Suavizou para não ser aquele impacto. Mas mais do que isso não fez não.”

Reajuste de combustível. “Eles definiram o reajuste (A Petrobrás anunciou ontem reajuste de preços dos combustíveis, com aumento de 3% para a gasolina e 5% para o óleo diesel nas refinarias). Esse reajuste é para o passado. Para uma parte do passado. Porque vai ter um período agora em que vai ser assim: preço internacional baixo, preço nosso lá em cima. Eu passei 2004, 2005, 2006 e 2007 com essas variações. Às vezes ficava para baixo, às vezes para cima. Só não acho que é correto querer atrelar ao preço internacional do petróleo o preço do combustível no Brasil.”

Economia mundial. “Não pode comparar o mundo hoje com o mundo de 2008, 2009 e 2010. Não é o mesmo mundo. Isso é tão sério que a nossa companheira Angela Merkel (chanceler alemã) está com problemas na indústria mais competitiva do mundo. Se você olhar a queda dos preços nossos (commodities), pode ser preço e quantidade, mas dá assim, 28%. E aquela história, que diziam na campanha, que os nossos vizinhos vão estar ótimos, não é “vero”. Todos eles dependem de commodities. Todos já começaram a reduzir seu nível de crescimento. Numa conjuntura de queda geral, num quadro de commodities em queda, a América Latina vai sofrer feio. Porém, o que eu espero? Espero que essa queda das commodities não resulte em algo muito duradouro. Porque eu andei conversando por aí e me disseram que não é tanto a China. Porque até a China está se mantendo. O problema maior de compra é da zona da União Europeia. Lá é que está mais complicado. Se perguntar, por exemplo, para o pessoal da Vale, onde que diminui mais, vão dizer: União Europeia.”

Crescimento. “A minha esperança é que o Brasil terá uma recuperação. Enquanto isso, eu espero que o mundo também tenha. Porque aí a nossa recuperação será mais potencializada pela recuperação internacional. O meu interesse na reunião do G-20 é ver como é que eles estão encarando esse futuro. No Brasil, vamos fazer nossa parte. Porque até agora não deixamos o barco afundar. Mantivemos o nível de investimento. Num sufoco danado, mantivemos. Mantivemos também o emprego e a renda. Então, emprego e renda gera mercado de consumo. Investimento e infraestrutura é pré-condição da produtividade.”

Desoneração. “Tomamos providências para desonerar, sim. Se você for ver, em termos de arrecadação, não teríamos problemas hoje se não tivéssemos desonerado. É quase R$ 70 bilhões. Agora, pergunta, a desoneração foi boa? Você lamenta, se arrepende? Não me arrependo, não. Porque a desoneração, na recuperação da economia, vai ser fundamental. Porque é uma força que você dá para o setor privado (...) Dessa vez, não levamos uma década para acelerar o carro. Temos condições de acelerar o carro.”

Nomeação de ministros. “Não vou pedir isso para eles (os ministros, colocarem os cargos à disposição). Vieram alguns ministros sugerindo isso. Se quiserem fazer, façam. Agora, me sinto extremamente à vontade para nomear e tirar. Se eles quiserem fazer, façam.”

Lava Jato e delação. “Olha, acho que é um momento que temos no Brasil para acabar com a impunidade, repetindo o que disse durante toda a campanha. Sabe por quê? Eu não vou engavetar nada, não vou pressionar para não investigarem e quero todos os responsáveis devidamente punidos. Lamento que tenha ocorrido.”

Eleições e protestos. “Entre outras coisas, me ensinou o seguinte: o povo não é bobo. O povo é muito esperto nesse País. E como são gentis. E são elegantes. Mesmo se não são seus eleitores. É só uma pequena elite deselegante que xinga e que maltrata. O povo não faz isso não. Eles foram de uma elegância no trato (...) vi momentos muito importantes nessa campanha. Um deles foi aquela manifestação que eu e Lula assistimos em Recife. Os anos vão passar e eu nunca vou me esquecer.”

Demissão de Graça Foster.  “É um absurdo você dizer isso.”

Eduardo Cunha. “Estamos há muito tempo convivendo com o (líder do PMDB na Câmara) Eduardo Cunha ... (silêncio longo). Cada pessoa percorre um caminho. Você se encontra no futuro. Não existe nada pré-determinado.”

Projeto da renegociação das dívidas dos Estados e municípios. “Ainda estamos analisando (o veto ou sanção). Não tenho posição definitiva sobre o que faremos. Mas sempre que tiver um ‘pratrásmente’ você estoura a viúva e sua bolsa vai para o beleléu. Mas eu acho que nesse caso não tem um ‘pratrásmente’. Que seria residual. Não tenho certeza. Tenho que olhar primeiro.”

PEC da Bengala. “É muito ruim a PEC da Bengala. Porque não pode fazer a bengala só para uns e não para outros.”

 

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