Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Valério achava que nunca seria condenado, diz ex-secretária

Testemunha do mensalão, Fernanda Karina Somaggio, que trabalhava para o publicitário, diz viver no anonimato para ‘não sofrer preconceito’

Bruno Lupion, de O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2012 | 17h16

Ex-secretária do operador do mensalão e uma das testemunhas-chave do escândalo, Fernanda Karina Somaggio não descarta que o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza “esteja blefando” ao ter prestado novo depoimento à Procuradoria-Geral da República e pedir benefícios que o livrem da prisão. “Ele sabe jogar”, disse, em entrevista exclusiva ao Estado, sobre o ex-chefe. “Ele achava que nunca seria condenado, como era a praxe antigamente.”

A ex-secretária de Valério prefere hoje ser chamada de Fernanda, e não de Karina, como ficou conhecida há sete anos. É assim que seus novos amigos a chamam. Os vizinhos sequer sabem que ela foi personagem de um dos maiores escândalos políticos do País, hoje em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Ela quer assim. Tanto que, em vez de encontrar a reportagem em casa - uma chácara na Grande São Paulo (ela não divulga a cidade) -, preferiu dar a entrevista na capital.

Fernanda era a portadora da agenda dos encontros de Valério com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o ex-secretário-geral do partido, Silvio Pereira. Foi testemunha ocular de malas de dinheiro e, em depoimento de mais de 12 horas na CPI dos Correios, trouxe a público detalhes do esquema de compra de apoio político no Congresso no início do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A notoriedade teve consequências. Após estampar capas de revistas, a carreira de secretária executiva naufragou, o pai foi assassinado em circunstâncias atípicas e o casamento acabou. Hoje, Fernanda vive com o novo marido e a filha de 16 anos e cuida de seus seis cavalos.

Ao relembrar o que viveu na SMPB, agência de Valério, a ex-secretária recorda que documentos foram destruídos, diz que os réus do núcleo operacional (ou publicitário) sabiam o que estavam fazendo e que nunca ouviu menção ao nome do ex-presidente, agora citado pelo empresário ao Ministério Público. “Eu não soube de nada com o nome do Lula.”

A sra. foi uma das primeiras pessoas a denunciar o mensalão e seu depoimento ajudou a comprovar o esquema. Como avalia o julgamento?

Foi um passo para a democracia, para as pessoas começarem a ver que existe Justiça para todo mundo. Se a gente for analisar toda a história do Brasil, nunca tinha acontecido (de políticos importantes serem condenados). Pode não parecer, mas é o nosso dinheiro que vai fazer falta na outra ponta, que é a ponta de quem precisa de atendimento médico, de segurança. O Brasil ainda tem muito o que evoluir, mas já deu o primeiro passo. A cultura da corrupção, da compra de voto, do “pagou, eu alivio”, tem que se extinguir.

Há quem critique um suposto excesso de rigor dos ministros. A sra. concorda?

Acho que os ministros estão certos, que eles estão lá para representar o que a população sente. Acho que toda a população gostaria desse rigor que está sendo imposto. Com todas as pessoas que eu converso, das quais muitas nem sabem quem eu sou, vejo que pensam a mesma coisa. Nós gostaríamos de uma Justiça rigorosa com todos. Na política, acho que já teve impacto nessa eleição, com a Lei da Ficha Limpa. Se não tivesse tido todo o episódio do mensalão, a população não teria pedido pela Ficha Limpa. Foi um passo.

O empresário Marcos Valério deu novo depoimento ao Ministério Público em que menciona o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel. A sra. acha que ele pode ter novas revelações a fazer?

Não sei de nenhum fato novo. Ele é articulador, conhece todos os meandros. Tanto que montou um esquema do tamanho que é. Ele sabe jogar. Talvez esteja blefando. Talvez não. Ele achava que nunca seria condenado, como era a praxe antigamente.

A sra. acha que ele já entregou tudo o que tinha?

Para chegar na pena de 40 anos, acho que a polícia já pegou muita coisa. Mas teve muito documento queimado, muito documento sumiu. Se existiam documentos que foram escondidos, eu não estava junto, eu não sei.

Marcos Valério pode ter provas para implicar Lula no mensalão?

Se existe prova, não conheço. Eu não soube de nada com o nome do Lula.

Alguma vez a sra. ouviu falar no nome de Celso Daniel quando trabalhava na SMPB?

Não, só o normal que tinha saído na imprensa. Por mim não passou nada nem sobre o Lula nem sobre o Celso Daniel. Nunca ninguém falou, nunca vi, nunca preenchi, nunca liguei para nada em relação aos dois nomes.

Como a sra. vê a gestão do PT no governo federal?

Eu já doei pro PT, eu era petista. Existem figuras dentro do PT que realmente são de tirar o chapéu, por exemplo a Dilma (Rousseff), mas existem outras pessoas, por exemplo o Delúbio, que não são. O PT fez muito pelo Brasil, mas os outros partidos também fizeram. Existem pessoas boas e ruins em todos os partidos. E existem pessoas que realmente dão a vida para trabalhar na política, porque querem ver um País melhor. Dentro do PT existem pessoas assim, e dentro do PSDB, do PMDB, do PV, vale para todos.

Os ex-sócios de Valério Ramon Hollerbach e Cristiano Paz, o advogado Rogério Tolentino e a diretora Simone Vasconcelos tiveram suas penas definidas pelo Supremo Tribunal Federal. A sra. acha que são penas adequadas?

Segundo os ministros, sim. São eles que ponderam. Se você fez, você tem que pagar. Acho que os ministros do STF fizeram um excelente trabalho. Eles colocaram a população brasileira para pensar. Por mim, todos eles deveriam pagar da mesma maneira, porque sabiam o que estava acontecendo. Os três sócios sabiam de exatamente tudo, tirando a Simone, que era mandada.

Simone também deveria ser presa?

Ela tinha discernimento do que era certo e do que era errado. Ela não fez porque mandaram e (ela) tinha medo de perder o emprego. Ela fez porque sabia que estava fazendo aquilo, e o que ela estava fazendo era errado. Então ela tem que pagar pelo que ela fez.

Valério chegou a pedir para a sra. fazer algo ilícito? A sra. negou?

Sim, foi o motivo de eu ter saído de lá. Quando comecei a indagar sobre certas atitudes dentro da empresa, isso começou a irritar todo mundo, inclusive o Marcos Valério. Porque ele era sem educação, ele mandava e pronto. Quer fazer, faz, não quer, junte suas coisas e vai embora. Eu achei que a melhor coisa era a segunda opção.

Seu pai foi assassinado em Mococa (SP) durante o processo do mensalão e a polícia concluiu que o crime teria ocorrido durante uma tentativa de assalto. O que a sra. pensa a respeito?

A investigação é cheia de buracos. Para um fato que ocorreu numa cidade que, na época, não tinha tanta violência, deveria ter sido apurado de uma maneira mais profunda. Tanto que existe o fato de a polícia de São Paulo ter ido para Minas pegar os dois assassinos. E os criminosos chamaram pelo meu nome. Era para eu estar lá naquela hora, naquele dia, na casa do meu pai. E por causa do destino ele ligou pedindo para eu não ir.

Para a sra., então, não foi um crime comum?

Não, nunca foi. Apesar de todo o inquérito ter dito que sim. Mas nunca foi. Poderia ter sido alguma coisa não para chegar a assassinato, mas para intimidar mesmo. E o ônus pela morte do meu pai é meu.

Que impacto a denúncia do mensalão teve na sua vida?

Eu fiz porque achava que era o certo. Não levei nenhum tipo de vantagem, muito pelo contrário, só levei ônus. Acabou com a minha vida profissional, com a minha vida familiar e com a minha vida pessoal. O dinheiro que eu tinha usei para pagar advogado. Hoje, moro num lugar que ninguém sabe, as pessoas não sabem quem eu sou, as pessoas com quem eu convivo não me chamam de Karina. Isso foi o ônus do mensalão, viver no anonimato para não sofrer o preconceito das pessoas.

Qual preconceito?

De achar que eu queria tirar alguma vantagem. Teve todo o episódio da Playboy. Não existiu isso, de querer posar (nua). Nunca houve esse intuito. Mas caiu na mídia e já viu, um feijão vira uma árvore. Eu não ganhei dinheiro, eu me separei, o meu pai morreu e eu vivo no anonimato. O que eu tirei de vantagem nisso? Se eu faria de novo? Faria, tudo de novo, porque é o certo.

A sra. se sentiu vítima de machismo nesse episódio?

Não, nunca, eu sou mulher e acho que mulher é muito mais forte do que homem, por mais que queiram falar que não. O que acontece é que as pessoas, por ignorância, talvez não entendam esse fato, de que eu fiz porque achava que era o certo. Eu fui julgada. Hoje eu não julgo, aprendi a não julgar as pessoas, porque eu fui julgada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.