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Valentia não assusta

Momento de Trump e Johnson mostra a Bolsonaro diferença entre retórica e realidade

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 03h00

Jair Bolsonaro e Donald Trump até pareciam ter ensaiado os discursos que fizeram na Assembleia-Geral da ONU. A expressão usada por Marina Silva foi precisa ao estabelecer a analogia com a ordem dos pratos em um banquete global: o presidente brasileiro foi o couvert arrematado depois por uma refeição pesada do ídolo norte-americano. 

Bem fará Bolsonaro se, além de emular a retórica tão histriônica quanto vazia de Trump ao bradar contra o fantasma do socialismo e contra o tal globalismo, observar que nem tudo são flores na relação do presidente dos Estados Unidos com as instituições. O que mostra que, numa democracia, não adianta impostar a voz e falar grosso, porque o sistema de freios e contrapesos trata de equalizar as falas e as ações quando elas se desviam – ou mesmo dão indícios de que podem ter se desviado – dos preceitos legais e constitucionais. 

Em plena campanha à reeleição, Trump se vê às voltas com os primeiros passos para a abertura de um processo de impeachment contra si. Sim, o processo foi iniciado pela democrata Nancy Pelosi, adversária de Trump. Sim, existe a possibilidade de que o processo não progrida. E também é verdade que existe um eleitorado fiel ao republicano e indiferente a essas vicissitudes. 

Mas a reação da Câmara dos Representantes mostra o vigor da democracia dos Estados Unidos mesmo em tempos de radicalização política, em que o presidente se move no tabuleiro internacional com a sutileza de um elefante numa loja de cristais, declarando guerra comercial à China e estabelecendo relações suspeitas com a Rússia e a Ucrânia, para ficar apenas em alguns exemplos. 

Ao dobrar a aposta no tom de confronto em sua fala na ONU, Bolsonaro se mira em Trump e demonstra ter a ilusão de que está em condições de cantar de galo perante o mundo. Montado numa economia pujante, ancorado numa situação de pleno emprego e sendo a maior potência política e militar do mundo, Trump pode até fazer isso, e ainda assim enfrentando reações como a que agora assistimos. O “bom homem” que insiste em bajulá-lo, não. 

Bolsonaro fala em “democracia ocidental” e enxerga apenas os Estados Unidos, se esquecendo de que a Europa é um parceiro importante do Brasil, com o qual o Mercosul acaba de selar um acordo que ainda precisa de chancela do parlamento europeu e dos Congressos dos países sul-americanos. 

A ironia e a forma desrespeitosa com que tratou parceiros europeus podem cobrar um preço do Brasil nos próximos passos dessas tratativas multilaterais e também levar fundos europeus e compradores das commodities brasileiras a reavaliarem investimentos e negócios com o País. Era esse tipo de temor que demonstravam gestores de fundos, analistas de bancos e gestores de empresas brasileiros ontem depois da ressaca da fala passadista de Bolsonaro na ONU. 

Não é só Trump que deve servir de exemplo a Bolsonaro de que nem só de retórica inflamada e cabelos desalinhados prospera um político da direita populista. Boris Johnson mal foi alçado a primeiro-ministro da Inglaterra e achou que podia fechar o Parlamento e fazer o Brexit na marra. A Suprema Corte britânica tratou de lhe mostrar, por unanimidade de seus 12 integrantes, que não é assim que a banda toca. 

Em sua fala, Bolsonaro deixa subjacente uma crença que o acompanha desde que venceu a eleição: a de que o Brasil subitamente virou um País evangélico, conservador ao extremo, de direita e disposto a tudo contra o espantalho do comunismo. Isso é uma fantasia que já soa cafona para os convertidos das redes sociais. 

Dito em voz alta perante o mundo, e tendo como contraponto a realidade enfrentada por outros experts em narrativas rocambolescas, esse blablablá soa ainda mais ridículo.

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