UTC emprestou até R$ 1 milhão para Youssef, diz presidente de empreiteira

Em depoimento à Polícia Federal, Ricardo Pessoa detalha relação que manteve com o doleiro

Fábio Brandt, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2014 | 18h15

Brasília - A empreiteira UTC emprestou de R$ 900 mil a R$ 1 milhão em dinheiro vivo ao doleiro Alberto Youssef na época em que foram sócios na construção de um hotel em Salvador, por volta de 2008.

A declaração foi dada pelo presidente da UTC, Ricardo Ribeiro Pessoa, em depoimento à Polícia Federal nesta terça-feira. Ele está preso desde a última sexta-feira, quando foi deflagrada a sétima fase da Operação Lava Jato, que investiga um esquema de corrupção alimentado por algumas das maiores construtoras do País e por diretorias da Petrobrás.

Pessoa disse aos policiais que foi apresentado a Youssef pelo falecido deputado federal José Janene (PP). Na época, segundo o executivo, ele e o doleiro tinham interesses comuns em negócios na capital baiana. O depoimento não detalha a evolução da relação pessoal entre a dupla, mas fica claro que a proximidade levou aos empréstimos.

"Youssef possuía uma empresa de nome GFD, vindo a adquirir uma participação em um empreendimento hoteleiro em Salvador construído pela UTC. A parceria foi considerada interessante, haja vista que Youssef traria consigo as empresas Tieko Aoki, dona da marca Blue Tree, a qual se tornaria administradora do hotel sob a bandeira Spot Light", afirmou Pessoa aos policiais federais. A negociação, contudo, não deu certo e o hotel em Salvador não possui a bandeira Spot Light.

O presidente da UTC disse que "eventualmente" Youssef "solicitava dinheiro emprestado e, posteriormente, devolvia". O executivo não soube dizer quanto tempo levava para reaver as quantias, mas que nunca cobrou juros do doleiro. "A UTC possuía em caixa na época em que isso ocorreu, por volta do ano de 2008, cerca de R$ 900 mil a R$ 1 milhão, sendo esses recursos eventualmente emprestados ao mesmo", declarou. No depoimento não há referência ao uso que Youssef fazia do dinheiro.

Parte do que a UTC repassou em dinheiro vivo a Youssef, no entanto, serviu para "pagar uma chantagem por parte de uma mulher, de nome Monica Santos, com quem teve um breve relacionamento há cerca de 22 anos". Pessoa disse que perdeu o contato com Monica até 2012, quando ela começou "a lhe importunar". O presidente da empreiteira disse acreditar "ter dado cerca de R$ 800 mil a Monica Santos", mesmo sendo aconselhado por advogado a registrar um boletim de ocorrência contra ela.

O responsável na UTC pelo controle das operações financeiras em espécie com Youssef, segundo Ricardo Pessoa, era o diretor empresa Walmir Pinheiro, que também foi preso na última sexta-feira, mas teve seu alvará de soltura expedito nessa terça-feira.

Pagamentos. Os policiais questionaram Ricardo Pessoa sobre os pagamentos feitos pela UTC às empresas Piemonte e Auguri, que, de acordo com as autoridades, eram usadas pela empresa Toyo para pagar propinas e obter contratos com a Petrobrás. Pessoa afirmou no depoimento que acredita ter pago R$ 40 milhões em dez prestações.

"Questionado acerca dos pagamentos feitos às empresas Piemonte e Auguri, afirma que as mesmas seriam pertencentes a Julio Camargo, o qual foi o responsável pela aproximação entre a UTC e a empresa Mitsui, que Julio teria auxiliado nas tratativas com a Sembawang Corporation (...) Com a saída da Mitsui do negócio anteriormente mencionado, a mesma recusou-se a pagar Julio Camargo pelo serviço, assumindo a UTC esse ônus".

Doações eleitorais. O empreiteiro falou ainda sobre as doações da UTC para campanhas eleitorais. Sobre "contatos com tesoureiros ou arrecadadores de partidos", ele declarou ter tido contato "próximo" com João Vaccari, que lhe pedia dinheiro para o PT, e com uma pessoa identificada no relato policial apenas como "Dr. Freitas", que seria o arrecadador do PSDB.

Como divulgou o Estado em setembro, a UTC fez repassses para as campanhas à Presidência de Dilma Roussef e Aécio Neves nas eleições deste ano

Pessoa disse que a UTC faz doações para políticos desde 1992. Os critérios para liberar o dinheiro, de acordo com ele, são os seguintes: políticos que "possam favorecer o desenvolvimento industrial", políticos que "se destacam como possíveis defensores do setor onde a UTC atua" e políticos que "pedem insistentemente". O relato não inclui detalhes sobre como é feito o pedido insistente de doações.

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