USP anula demissão de professora desaparecida na ditadura militar

Decisão anterior da universidade era de que docente havia abandonado a sua função

Ricardo Chapola, O Estado de S. Paulo

17 Abril 2014 | 20h17

SÃO PAULO - A Congregação do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) anulou nesta quinta-feira, 17, a demissão da professora Ana Rosa Kucinski, desaparecida no período da ditadura militar.

O argumento mantido pela universidade até então era que Ana Rosa havia sido demitida por abandono de emprego. A revisão sobre o caso foi revelada pelo Estado em reportagem publicada nesta quarta.

O diretor do Instituto de Química da USP, professor Luiz Henrique Catalani, classificou a postura da congregação como "apropriada" diante de um "equívoco" cometido pela comissão que demitiu a professora sob justificativa de abandono de emprego.

"A congregação de hoje devia essa homenagem a Ana Rosa. A comissão processante daquela época ignorou uma série de elementos, fatos alimentados pela família e que não foram levados em consideração", disse Catalani, que também participou da reunião realizada no campus da USP, em São Paulo. O diretor fez referência às informações garimpadas pela Comissão da Verdade da USP que, segundo ele, preencheram "lacunas" do antigo veredicto da congregação. Depoimentos de agentes da repressão colhidos pelo colegiado indicavam que Ana Rosa havia sido sequestrada e torturada.

"O fato é que hoje a gente reconhece uma decisão equivocada. E isso fez com que a congregação prontamente e por unanimidade aprovasse a anulação da decisão de 1975".

Essa é a segunda vez que a USP se corrige sobre o caso. A primeira ocorreu em 1995, quando o irmão de Ana Rosa, o também professor da USP, Bernardo Kucinski, encaminhou à reitoria da universidade um pedido de retificação sobre a demissão da irmã. Na época, a universidade se retificou emitindo um parecer jurídico que não agradou a família.

A decisão por demitir Ana Rosa é datada de 1975, quando a congregação, órgão máximo do Instituto de Química, aprovou a proposta vinda da reitoria pedindo a dispensa da professora por abandono de função.

Homenagens. Além do cancelamento da demissão, a reunião serviu para que integrantes da congregação entregassem um pedido formal de desculpas à família da professora. Quem recebeu a homenagem foi o irmão de Ana Rosa, o também professor da USP Bernardo Kucinski, chamado por Catalani para acompanhar a reunião. A universidade também vai inaugurar na próxima terça-feira um monumento em memória a Ana Rosa nos jardins do Instituto de Química.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.