Uso de viva-voz é liberado até decisão do Contran

O celular viva-voz no trânsito está liberado temporariamente até que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) defina a questão. Especialistas reunidos nesta segunda-feira no seminário promovido pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) foram unânimes em afirmar que o risco de acidente é igual para o motorista que usa celular tradicional, fone de ouvido ou viva-voz.Pesquisas mostram que dirigir e conversar ao celular afetam a concentração do motorista. O aparelho normal de celular e fone monoauricular, que já são proibidos no trânsito, são visíveis quando em uso. O mesmo não ocorre com o viva-voz. ?Não dá para distinguir se a pessoa está usando o viva-voz, cantando ou falando sozinha?, admitiu a diretora do Denatran Rosa Maria Cunha, temendo que o cidadão acabe sendo sujeito de uma fiscalização subjetiva por parte dos agentes de trânsito.CampanhaA diretora, que há três semanas proibiu o uso de qualquer sistema, gostaria de iniciar imediatamente uma campanha educativa. Ela encaminhará ao Contran três sugestões feitas no seminário: proibir qualquer uso de celular no trânsito, realizar pesquisas para esclarecer os reais riscos e definir formas eficientes de fiscalização.O advogado especialista em trânsito José Almeida Sobrinho diz que uma saída seria proibir a instalação do viva-voz no carro. A multa só ocorreria em blitze ou nas vistorias dos Detrans. Outra opção seria o intercâmbio entre a operadora de telecomunicação e o órgão de fiscalização de trânsito para verificar se, no momento do acidente, o motorista estava ao celular.?Não seria uma quebra de sigilo telefônico?, garante. Só funcionaria para as chamadas feitas pelo motorista e não para as recebidas. O interlocutor não seria identificado. São suposições que dependem da palavra final do Contran.Questão de sobrevivênciaSobrinho reconhece ainda que, nos dias de hoje, o uso de celular é quase uma questão de sobrevivência para alguns profissionais e também necessário quando o motorista está preso em congestionamentos. Ele afirma que cabe à sociedade decidir se está disposta a correr o risco de estar mais exposta a acidentes para garantir os benefícios das inovações tecnológicas.Durante o seminário, representantes da indústria informaram que no mercado já existem carros equipados com viva-voz, computadores de bordo para acessar internet e roteiros de trânsito, além de TV.Acidentes e sobrecarga mentalO presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Fabio Racy, garante que o risco de acidente aumenta quatro vezes com o uso do celular. Com base em pesquisas feitas pela USP e pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), verificou-se que aumentaram o tempo médio de percurso e de reação a imprevistos e as ultrapassagens a sinais vermelhos e número de acidentes.O professor do Departamento de Psicologia e Educação da Universidade de São Paulo, José Aparecido da Silva, fez análise de dados experimentais e epidemiológicos e concluiu que dirigir e falar ao celular provoca uma sobrecarga mental no motorista. Silva alerta que a sobrecarga ocorre independente de o motorista estar usando um aparelho normal ou o viva-voz. Para o conselheiro do Conselho Federal de Psicologia, Ricardo Moretszohn, antes de punir o motorista, o governo deveria investir em campanhas a exemplo do que ocorreu com o cigarro. ?Fumar hoje é brega, mas 20 anos atrás era chique?, disse.Moretszohn também comentou que existem assuntos mais sérios do que o viva-voz para discutir. Segundo ele, a causa de metade das 50 mil mortes no trânsito é atropelamento. Outro problema é o alcoolismo. Ele disse que, na madrugada desta segunda-feira, em Belo Horizonte um motorista bêbado, de uma família tradicional de Minas, entrou na contramão, matou uma pessoa e atropelou outras.

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