Urnas contrariam pesquisas, mas especialistas negam falha

Ibope e Datafolha indicavam clara vantagem de Marta sobre Kassab, mas ocorreu o inverso na apuração dos votos

Daniel Bramatti, O Estadao de S.Paulo

06 de outubro de 2008 | 00h00

Pesquisa é um retrato do momento. O chavão, repetido à exaustão por candidatos mal colocados em levantamentos de intenção de voto, ganhou força de verdade científica com o resultado da eleição em São Paulo, em que Gilberto Kassab (DEM) ficou à frente de Marta Suplicy (PT).Pesquisa Datafolha fechada na véspera da eleição dava a Marta seis pontos de vantagem. O Ibope apresentava a petista com oito pontos à frente do candidato do DEM.Os dois levantamentos, porém, indicavam uma tendência de crescimento nas intenções de voto em Kassab. E, afirmam os representantes dos dois institutos, essa ascensão continuou até o encerramento da votação."Candidatos crescem no dia da eleição, não se pode pegar uma pesquisa feita dias antes e comparar com o resultado das urnas, porque sempre haverá alguma diferença", afirma Márcia Cavallari, diretora do Ibope."Houve movimentação nos números no dia da votação, candidatos perderam e outros ganharam", afirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha.Mas como a pesquisa de boca-de-urna do Ibope, em que os eleitores foram abordados depois de votar, não captou o impulso final que faria o candidato do DEM ultrapassar a petista?Aí as explicações são técnicas e envolvem a margem de erro - aquele aspecto da realidade que nem sempre é possível captar apenas com uma amostra da população.O Ibope divulgou um levantamento de boca-de-urna com margem de erro de dois pontos porcentuais para mais ou para menos. Marta aparecia com 36%, Kassab, com 32%. Ou seja, o prefeito e candidato à reeleição poderia emergir das urnas com 30% a 34% dos votos. A petista, com 34% a 38%.Às 23h30 de ontem, Kassab tinha 33,76% dos votos - dentro da margem de erro do Ibope. Marta, subindo pouco a pouco a cada divulgação parcial, estava com 32,56% no mesmo horário. Fora, portanto, do desvio aceitável de dois pontos.AMOSTRAUma das possíveis explicações para o resultado é um segredo bem guardado pelos estatísticos: a própria margem de erro tem uma margem de erro. Quando divulgam um índice de dois pontos porcentuais em uma determinada pesquisa, os institutos estão se valendo de uma espécie de "liberdade matemática". Na verdade, cada candidato tem uma margem de erro diferente, que depende de seu porcentual de preferências - algo "muito complexo" e que, se fosse apresentado em minúcias, mais confundiria que esclareceria os eleitores, afirma a diretora do Ibope.Outra fonte de possíveis desvios: a margem de erro de dois pontos porcentuais, que foi registrada na Justiça Eleitoral antes mesmo da realização da pesquisa, se refere à totalidade da amostra de entrevistados. Mas, no caso da boca-de-urna, foram excluídos do resultado final todos os eleitores que declararam voto em branco ou nulo (cerca de 6%), a fim de calcular apenas os chamados votos válidos. Ou seja, na prática, a amostra da pesquisa foi menor - e, quanto menor a amostra, maior a margem de erro real.A terceira possível explicação é, pura e simplesmente, um erro. Mas isso o Ibope não reconhece."Nossa coleta de dados terminou às 14h30. Não ouvimos ninguém entre esse horário e as 17h. Não sabemos se eles tinham algum perfil diferenciado que pudesse mudar o resultado final", afirma Márcia Cavallari, levantando outra hipótese para justificar o desencontro entre os números.DECISÃO ADIADAPara Mauro Paulino, o que o resultado de São Paulo demonstra a é que os eleitores decidem cada vez mais tarde em quem votarão. "Não vejo como uma questão de apatia. O voto está mais cerebral, mais pensado", observa.Por conta desse comportamento, diz ele, já não é possível fazer prognósticos de eleição no Brasil - ou seja, prever os resultados. A razão maior das pesquisas, explica ele, passa a ser revelar tendências de voto, mas não antecipar exatamente o que sairá das urnas.Márcia concorda com a observação de que a definição de voto é cada vez mais tardia. Mas insiste que, sim, os institutos são capazes de fazer prognósticos eleitorais. "Nós trabalhamos com um intervalo de confiança de 95%, ou seja, de cada 100 pesquisas, 95 têm seus resultados dentro da margem de erro. Há um grau de precisão muito grande no Brasil", argumenta a diretora do Ibope.

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