Uribe cobra maior participação no combate ao narcotráfico

São Paulo - Durante a 12ª Cúpula Ibero-americana, que reúne nesta sexta-feira 21 chefes de Estado na República Dominicana, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, cobra maior participação no combate à guerrilha e ao narcotráfico. Segundo ele, a Colômbia precisa de ajuda do mundo para derrotar o terror e a arrogância dos violentos. Veja a íntegra de seu discurso:"À pouca distância do edifício das Nações unidas em Nova York, no fatídico 11 de setembro de 2001, morreram 2.801 cidadãos do mundo. Na Colômbia, a cada mês, a violência alcança igual número de vítimas. Quarenta e três milhões de colombianos, povo amante da paz, suportam uma das mais graves crises humanitárias do mundo.A Colômbia tem que enterrar a cada ano 34 mil filhos seus, vitimas da violência. Perdemos 10% de nossos jovens.No ano passado, o País registrou a taxa mais alta de homicídios no mundo: 63 a cada 100 mil habitantes. Durante os últimos cinco anos, sofremos 8 mil atos de destruição coletiva, cifra superior à registrada nos demais casos de violência do mundo; 280 povoados sofreram ataques de guerrilhas e paramilitares, com graves conseqüências para a população civil e a Força Pública. O ato terrorista perpetrado durante minha posse, matou a 21 pessoas humildes.Duas milhões de pessoas, 40% crianças, sofrem hoje com um deslocamento forçado, sob a pressão de grupos violentos. Esta cifra eqüivale à soma das comunidades de Washington e Manhattan.No último lustro, 16.500 pessoas foram vítimas de seqüestro. Ontem, seis meninos foram seqüestrados e um ainda permanece preso.Trezentos e noventa prefeitos ? mais da quarta parte do total de municípios do País -, nove governadores e 107 deputados estão sob ameaça de morte, pelos mesmos grupos.Os ataques terroristas do 11 de setembro comoveram ao mundo e provocaram a justa condenação universal. A humanidade deve estremecer ante atentados como o cometido por guerrilheiros no dia 2 de maio em Bojará, um povoado de mil habitantes. Ali foram assassinadas 117 pessoas refugiadas na igreja.Esta violência compromete quatro pontos do Produto Interno Bruto do País.Diariamente ocorrem assaltos, seqüestros e roubos nas principais estradas, como a que une duas de nossas principais cidades. E se isso acontecesse entre Bruxelas e Paris, ou entre Nova York e Boston?Os colombianos fazemos hoje um grande esforço para enfrentar o problema: com políticas de ordem pública, reformas do Estado que eliminem a corrupção e a politicagem; maior crescimento e investimento social.Segurança democrática com o império da leiO objetivo central da nossa política de Segurança Democrática é resgatar o império da Lei. A segurança não é para perseguir verdadeiros ou imaginários inimigos ideológicos. Tão pouco para sustentar o regime de partido único. A segurança democrática é para proteger a todos os cidadãos em uma Nação pluralista, aberta ao fraterno debate criativo. A Segurança Democrática é para todos os colombianos. Para que não expulsem os camponeses de suas terras; não seqüestrem os empresários; não amedrontem os jornalistas; respeitem a missão dos bispos, sacerdotes, freiras, pastores de culto, educadores. Para que os sindicalistas exerçam livremente sua ação; os dirigentes políticos se locomovam sem temores; os defensores de direitos humanos se apliquem em seu trabalho sem ameaças.Como comandante civil das Forças Armadas estou comprometido na observância rigorosa dos direitos humanos. Sem estes pode haver apaziguamento, mas nunca haverá reconciliação. Nossas medidas de emergência não suprimem direitos humanos, mas exigem a observação de regras, por exemplo, na mobilização dos cidadãos, para evitar que em nome da livre locomoção continuem transportando explosivos para assassinar as pessoas.Respeitamos a controvérsia. A política de segurança que se implementa, não é para calar a crítica, mas para enfrentar a violência. Essa política não tem reverso.Na Colômbia, o índice de pessoal militar e de polícia é baixo: 3,9 para cada mil habitantes. Nova York conta com 42 mil policiais, toda Colômbia, com 75 mil.Temos de fortalecer a Força Pública. Decretamos um imposto ao patrimônio, que pagarão as empresas e pessoas de grandes entradas. Serão arrecadados recursos de aproximadamente 1% do PIB.No desenvolvimento da política de Segurança Democrática, nosso Governo convocou a solidariedade de um milhão de cidadãos para que, voluntariamente, assumam a tarefa de cooperar com a Força Pública e a Administração da Justiça. O apoio da cidadania às instituições legítimas é elemento essencial do Estado Social de Direito. É expressão da solidariedade de cada indivíduo com sua comunidade, sem a qual o Estado perde a natureza social. Necessitamos romper o medo cidadão à guerrilha, aos paramilitares, criar vínculos comunitários com as instituições democráticas. A eficácia e a transparência da força pública depende em alto grau da cooperação cidadã.O risco se estende ao resto da América LatinaO problema colombiano é um risco para a estabilidade democrática da região. Necessitamos da ajuda do mundo para resolvê-lo. Peço a ajuda do mundo porque meu Governo está decidido a derrotar o terror, de que não passem estes quatro anos como um novo triunfo da delinqüência nem como uma nova prova da vacilação do Estado e da sociedade frente à arrogância dos violentos.Eliminar as fontes de financiamento do terror é imperativo. Por isso, temos que vencer a droga e o seqüestro. O foro das Nações Unidas está preocupado com as armas de destruição em massa, e nós compartilhamos essa angústia. Por favor, devemos entender que a droga tem uma capacidade de destruição em massa, como a mais temível das armas químicas.Temos a determinação de eliminá-la. Pedimos ao mundo um compromisso igual. Não podemos continuar com decisões e ações pela metade, tímidas. Enquanto se divaga, o terrorismo semeia e trafica com mais droga. Não nos enviem armas! Eliminem seus mercados de droga e seus precursores químicos! Ajudem-nos com a interdição aérea e o confisco da droga que navega pelo Caribe e o Pacífico!Pedimos recursos para pagar a nossos camponeses a fim de que destruam a droga e cuidem da recuperação da mata.Na semana passada, Carlos Enrique Arenas, piloto da Armada Nacional - com 29 anos de idade, pai de uma filha de apenas dois anos e com um segundo filho a caminho -, desapareceu no mar. O helicóptero que operava caiu, logo que interceptou uma lancha com mais de duas toneladas de cocaína. Sacrifícios como estes demandam o apoio de todos os países para combater a droga, pois até agora somente pudemos confiscar 20% da quantidade que sai do nosso País.Uma resolução da ONU ordena o confisco das contas bancárias, investimentos e bens daqueles que comentem atos terroristas. Essa resolução foi letra morta nos países onde circula o dinheiro que financia os atos terroristas na Colômbia.A segurança não é oposta ao diálogoO compromisso de segurança do meu Governo não se opõem ao diálogo. Pelo contrário, o deseja. Por isso, pedimos a gestão de ?bons ofícios? das Nações Unidas, por intermédio de um assessor especial do Secretário Geral. Essa é a forma para iniciar um sério processo de paz que parta de um cessar da violência. A Carta das Nações Unidas nos ensina que para dialogar com aqueles que cometem atos de terror, é essencial que esses fatos sejam suspendidos.A dor de milhares de colombianos pelo seqüestro de seus seres queridos ? entre os quais se encontram a ex-candidata presidencial Ingrid Betancur, vários congressistas, deputados, o Governador do meu Estado, um ex-ministro infatigável na luta pela paz, integrantes da força pública e centenas de cidadãos ? indica que necessitamos de ações comunitárias, que sirvam, não para fertilizar a violência, mas para percorrer caminhos de reconciliação.O mundo está cheio de analistas do problema colombiano. De críticos de nossa sociedade e de nossos governos. Pedimos menos retórica e mais ação. Que nos ajudem de verdade a solucioná-lo. Demandamos cooperação eficaz porque esta violência se financia com um negócio internacional que é a droga e se executa com armas não fabricadas na Colômbia.A economia global afeta a pazSofremos miséria, injustiça, desconfiança de investidores, alto endividamento e déficit fiscal, iguais aos que agoniam a muitas nações. Sempre honramos e sempre honraremos nossas obrigações financeiras internacionais. Estamos realizando esforços sem precedentes para congelar gastos de funcionamento e incrementar impostos. Mas, necessitamos de um significativo respaldo econômico bilateral e multilateral para investir e gerar emprego. Isto é, para começar a pagar a dívida social. O triunfo frente à violência ajuda a economia crescer e a financiar o desenvolvimento social que, por sua vez, consolida a paz.Uma reflexão: uma libra de café colombiano chegou a valer mais de três dólares, hoje gira ao redor de 60 centavos. Os bancos internacionais e as agências de cooperação devem duplicar seu compromisso e recursos na Colômbia. O dinheiro não será para pagar abusos nem para resgatar quebras, mas para aplicar na reivindicação dos pobres, para assegurar a governabilidade.Os colombianos são um povo digno, trabalhador, democrático, prudente, cuja espontaneidade não foi abolida pelo martírio.A Nação tem a mais sólida tradição democrática, um reconhecido bom desempenho econômico de longo prazo, uma base industrial com a alta diversificação, uma estrutura produtiva com crescente orientação ao mercado internacional e enorme potencial da pequena empresa democrática.Com o compromisso e apoio dos senhores, que representam as Nações do Mundo, e com nossa determinação, Colômbia se livrará da escravidão da violência e poderá ser mais próspera e justa."

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