Unicamp testa novo medicamento contra vírus da aids

O T20, um novo medicamento contra o vírus da aids, começou a ser testado esta semana em cinco pacientes acompanhados pela equipe de infectologistas do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O medicamento vem sendo celebrado como uma novidade no combate à doença porque, ao contrário dos 16 outros já em uso, impede a entrada do vírus HIV na célula de defesa do organismo, onde ele se multiplica. De acordo com o médico infectologista William Barros de Abreu, um dos coordenadores dos estudos feitos na Unicamp, essa é a terceira fase de testes do medicamento, que poderá ser liberado para comércio no próximo ano. Na atual fase, serão avaliados 450 pacientes no mundo todo. No Brasil, seis institutos, inclusive o HC, participam do experimento. O médico comentou que o T20 foi desenvolvido em parceria pelos laboratórios Trimeris e Roche. Em estudos anteriores, ficou comprovado que a droga age com eficiência em 40% dos pacientes. O T20 está sendo utilizado primeiramente em portadores de HIV que já não respondem a coquetéis com os outros 16 remédios disponíveis atualmente. São doentes chamados de multifalidos, porque o vírus em seu organismo adquiriu imunidade a todos os medicamentos e volta a se multiplicar rapidamente. Barros explicou que os testes iniciais do T20 estão sendo feitos nesses pacientes, mas não descartou que o remédio possa vir a ser aplicado em doentes que não utilizaram os coquetéis já conhecidos. "Primeiro é preciso avaliar como o T20 age nos multifalidos, para depois estudar sua aplicação em outros pacientes", alegou. Nas próximas semanas, outros 15 infectados acompanhados pela Unicamp deverão ser submetidos ao tratamento com a nova droga. O médico lembrou que o HC acompanha 700 doentes de aids, dos quais 5% são multifalidos. Mas ele comentou que o T20 não pode ser usado em todos eles. Estimativas De acordo com Barros, as estimativas da aids no mundo são assustadoras. Em dez anos, ela deverá ter atingido 70 milhões de pessoas. "Infelizmente o número de casos continua aumentando", disse. Somente no Brasil, há 700 mil infectados. Ele comentou que após o surgimento da doença, eram 25 homens infectados para cada mulher, hoje a média é de um por um. "As chances de aumentar a disseminação são maiores", afirmou. Apesar de ser celebrado como uma boa alternativa aos doentes, o medicamento não cura a aids. Como os outros 16, controla a proliferação do vírus no organismo. Barros contou que um infectado produz 2,5 bilhões de novos vírus diariamente. Com os atuais coquetéis, esse número pode cair para zero. O problema é o que vírus desenvolve resistência às drogas e elas passam a não fazer mais efeito. Pacientes que se tratam desde o início da década passada já usaram todo o arsenal disponível e não têm mais como impedir a ação do HIV. O infectologista da Unicamp explicou que o tempo médio de ação de cada droga é de três anos. O T20 representa uma nova chance a esses pacientes e também aos outros. Segundo Barros, a droga age num "alvo anterior". Os coquetéis atuais atacam duas enzimas do vírus, chamadas de transcriptose reversa e proteose. É por meio dessas enzimas que o HIV se multiplica. O vírus invade a CD4, uma das células do sistema de defesa humano. Dentro dela, muda sua característica genética, o RNA, para se adaptar à da célula humana, o DNA. Depois disso, passa a produzir a enzima para se multiplicar. Os coquetéis disponíveis impedem a produção da enzima e a multiplicação do HIV. Resistência A T20 age em um estágio anterior e não permite que o vírus entre na célula. Para penetrar na CD4, o HIV libera uma proteína, chamada GP41, que garante a fusão. A T20, por afinidade química, é atraída pela GP41 e atrapalha o processo de entrada na célula, impedindo a proliferação de novos vírus. O médico afirmou que a tendência é que o HIV crie resistência também ao T20, mas ainda não é possível definir quanto tempo isso levará. Ele acrescentou que a cura da aids ainda está distante. "Há uma pequena chance de que seja desenvolvida uma vacina, mas não para esta década. Para a outra, talvez", ponderou. Nos testes feitos até agora, não houve efeitos colaterais do T20, a não ser a possibilidade de desenvolvimento de nódulos dolorosos resultante da aplicação da droga, que é feita por via subcutânea, como a insulina, duas vezes ao dia. O T20 permanece circulando no organismo até ser atraído pelo GP41 do vírus invasor, que morre depois de ter a fusão frustrada.

Agencia Estado,

18 Julho 2002 | 17h55

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