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União instável

O que é a crescente animosidade entre PT e PMDB, senão a explicitação do esgotamento de uma união instável? Aliança sustentada em base flácida, sem o menor traço de identidade entre as partes unidas única e exclusivamente pela conveniência.

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2015 | 05h00

Não foi feita para dar certo muito menos para ser eterna. Aconteceu porque, na perspectiva do interesse de um e de outro, não havia outro jeito. O PMDB não queria ficar na oposição e o PT enxergou na prática da cooptação a maneira mais confortável de construir maioria para se estabelecer como situação. 

Nesses termos firmaram contrato, cada qual sabendo perfeitamente onde amarravam as respectivas burrinhas. O PT jamais prometeu ao PMDB respeito. Entre outros motivos porque o partido não se deu ao respeito quando aderiu a um governo ao de um grupo político ao qual fazia oposição.

O PMDB, por sua vez, não pode dizer que a cigana o enganou. Sempre conheceu muito bem o modo dos petistas de lidar com aliados – sob a ótica da submissão – e nunca ignorou que olhavam os pemedebistas “de cima”. 

O PT concordava em lhe ceder os cargos pretendidos, desde que a pecha de fisiológico ficasse para uso exclusivo da testa do PMDB. O trato funcionou bem nos dois governos Lula, quando o ambiente era literalmente risonho e franco. O presidente não deixava que os ânimos se acirrassem, tinha sempre uma palavra ou um gesto agradável, todos se sentiam bem. 

Até que Dilma Rousseff assumiu a Presidência e a camaradagem acabou. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não conta novidade alguma quando informa que a parceria não vai se repetir na eleição presidencial de 2018. Ao custo de muito esforço – e da existência concreta da possibilidade de reeleição de Dilma – os votos foram renovados em 2014.

Por amor esses cônjuges não subiriam ao altar. A própria ascensão de Eduardo Cunha é consequência do litígio. Devido à insatisfação é que ele foi escolhido duas vezes líder da bancada do PMDB na Câmara, por ser visto como um deputado de confronto. 

No posto fez a fama, provou competência na função de contendor do Palácio do Planalto e, assim, foi eleito presidente da Câmara. Ciente disso, não pode faltar aos seus pares. 

Ao PT resta o quê? Resmungar, fazer de conta que não vê porque sozinho não tem como se sustentar. Quando 2018 chegar, cada um vai para o seu lado. Na verdade já vivem apartados. Morando na mesma casa, mas dormindo em quartos separados. 

Fratura exposta. Paulo Okamotto é o homem que cuida das finanças do ex-presidente Luiz Inácio da Silva. Pessoais e profissionais. Há muito tempo. Trata-se de um fato, não de uma ilação nem de uma suposição.

Pessoa de estrita confiança, ele preside o Instituto Lula e, como tal, foi convocado à CPI da Petrobrás para explicar doações de R$ 3 milhões da construtora Camargo Corrêa – uma das envolvidas na Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na estatal e pagamentos à empresa do ex-presidente. 

Segundo ele, não há mistério nem irregularidade. Dinheiro originário de pagamento de palestras, tudo perfeitamente contabilizado. De onde se depreende que, diante da CPI, Okamotto não teria a menor dificuldade em esclarecer os fatos e deixar de lado quaisquer suspeitas que porventura interessem à oposição.

Mas as coisas já não parecem tão serenas assim quando Lula qualifica a convocação como uma “bola nas costas”, exige satisfações até do vice-presidente da República e consegue que o presidente da CPI, do PMDB, passe a considerar a convocação de Paulo Okamotto uma decisão precipitada e resolva não marcar a audiência.

Nesse caso, o recuo e a opção pelo silêncio falam mais alto. 

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