Uma votação em clima de pastelão

?Calma, boneca?, pede um. ?Não ficam bem esses trejeitos?, responde outro...

Ana Paula Scinocca e Rosa Costa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2031 | 00h00

Um bate-boca dos bons, típico de meninos na saída da escola, com frases valentes e trejeitos teatrais, animou a reunião de ontem do Conselho de Ética. Estava em jogo um assunto sério: se seria aberta ou fechada a votação do processo contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). O relator Almeida Lima (PMDB-SE) queria que fosse fechada. O tucano Tasso Jereissati (CE), que fosse aberta."Calma, boneca", ironizou a certa altura Tasso, imitando gestos e tons efeminados, quando Almeida Lima tentava apresentar seu relatório. "Não ficam bem esses trejeitos no senhor", retrucou o relator. "V. Exa. não vai, senador Tasso Jereissati, castrar minha palavra e não permitir que eu leia um relatório de cinco laudas."O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), aproveitou a deixa: "Senador Almeida, ninguém quer castrar o senhor, de jeito nenhum. Nem na palavra nem do outro jeito." Tasso, seguro de si, subiu o tom e bateu as mãos na mesa, mas Almeida Lima encarou. "Força do direito, sim. Direito da força, não. Se o senhor sabe bater na mesa, eu sei ficar de pé", disse ele, e ameaçou caminhar na direção do tucano.Para tristeza de alguns, a turma do deixa disso entrou em cena e estragou a diversão. Sérgio Guerra (PSDB-CE), Demóstenes Torres (DEM-GO), junto com o deputado João Almeida (PSDB-BA) impediram que os dois medissem forças.A discussão começou quando Tasso cobrou posição do presidente do conselho, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), quanto à votação - se seria aberta ou secreta. Almeida Lima resolveu responder em nome de Quintanilha, mas Tasso bateu na mesa e, dedo em riste, acusou: "Deixa de palhaçada, você é um palhaço, você está vendido." Visivelmente perdido, como durante quase toda a sessão, Quintanilha não sabia o que fazer. Deixou a cadeira, consultou os técnicos e suspendeu a reunião.Ainda assim, o clima não esfriou. Coube ao corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), pedir calma para que a sala do conselho não se transformasse em um ringue. "Calma, gente. Isso aqui vai dar problema de agressão", pedia, sem sucesso.Almeida Lima e Tasso continuaram a bater boca. "Seu caráter é altamente deficitário", disse o tucano. De bate-pronto, o peemedebista retrucou: "Sua estatura não me pressiona nem me impressiona.""Nem na Câmara de Vereadores de Mossoró (RN) eu vi isso", lamentou o líder do DEM, José Agripino Maia (RN). "Para a imagem do Senado a cena foi uma beleza", emendou Sérgio Guerra. Depois de 20 minutos de sessão suspensa, a reunião do Conselho de Ética foi retomada.Almeida Lima, que assumiu a defesa de Renan - papel que deveria caber apenas a seu advogado, Eduardo Ferrão -, foi aconselhado, até mesmo por aliados, a recuar de sua estratégia inflamada. Wellington Salgado (PMDB-MG), da tropa de choque de Renan, repassou um telefone celular para o relator. Em seguida, sob nova orientação, ele recuou e aposentou as provocações.Até então elogiado no papel de presidente do conselho, Quintanilha deixou a boa imagem escapar já nas primeiras horas da sessão. Em vez de comandar, parecia perdido, alheio ao que estava ocorrendo. Nas seguidas ocasiões em que Demóstenes lhe pediu que indicasse o rito de votação dos pareceres, ele se limitava a deixar escapar um sorriso amarelo, como se não entendesse o pedido. No meio dos trabalhos, entregou o comando da sessão a seu vice, Adelmir Santana (DEM-DF).Outro momento novelesco do conselho ocorreu quando Demóstenes e Wellington Salgado se estranharam. A iniciativa coube ao senador goiano, que repreendeu o colega por ignorar regras do regimento. "V. Exa. poderia aprender um pouco, estudar o regimento", sugeriu. O outro respondeu: "V. Exa. foi mal educado comigo." Ao que Demóstenes replicou: "Isso é uma tentativa de chicana que nós temos de abortar agora. A forma do voto do conselho será feita pela maioria." Salgado reconheceu sua rispidez. "Senador Demóstenes, fui agressivo, peço desculpas mais uma vez." O outro retribuiu: ?Eu também peço desculpas." Levantaram-se e, delicadamente, se abraçaram, trocando tapinhas nas costas.

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