Joédson Alves / EFE
Joédson Alves / EFE

Uma reunião ministerial com destempero verbal, ofensas e pitos

'Tirem as conclusões de como falo com ministros’, disse Bolsonaro, antes do vídeo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, divulgado na sexta-feira, 22, expôs um governo totalmente desgovernado e complicou ainda mais a situação do presidente Jair Bolsonaro. No encontro, convocado para expor o programa Pró-Brasil de investimentos, Bolsonaro saiu do sério várias vezes, chamou governadores, como João Doria (São Paulo), de “bosta” e disse que quer “todo mundo armado” no País para “impedir” uma “ditadura”. Palavrões, ofensas, pitos e alfinetadas não faltaram naquela reunião no Palácio do Planalto.

“É fácil impor uma ditadura aqui, o povo está dentro de casa. Aí vem um bosta de prefeito que faz uma bosta de um decreto, algema e deixa todo mundo dentro de casa”, reclamou o presidente. Não foi a única frase na qual ele escancarou, com termos chulos, a divergência com governadores e prefeitos sobre a validade do isolamento social para combater a pandemia do coronavírus.

A gravação integra o inquérito aberto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello para investigar denúncia feita pelo então titular da Justiça Sérgio Moro de que Bolsonaro tentava interferir na Polícia Federal. Seis dias depois da reunião, e com Moro já fora do governo, Bolsonaro disse que queria divulgar o vídeo para pôr tudo em pratos limpos.

“Vocês vão ver lá. Tirem as conclusões de como eu converso com os ministros”, argumentou, ao parar para cumprimentar apoiadores, na portaria do Alvorada, no dia 28 de abril. “Mandei até legendar.” Ao ser alertado por advogados, depois, de que o vídeo poderia ter efeito bumerangue e se voltar contra ele, além de ampliar a crise, Bolsonaro desistiu da divulgação. 

Moro, no entanto, citou parte do conteúdo no depoimento à PF, como prova da tentativa de interferência de Bolsonaro na corporação. Relator do inquérito, Celso de Mello levantou o sigilo do vídeo – retirando apenas passagens com referências desairosas a países como China –, não sem antes admitir perplexidade com o tom da reunião.

Sem papas na língua e bastante exaltado, Bolsonaro abordou ali os assuntos mais polêmicos da República: foi de mudanças na Polícia Federal às armas, passando pela ditadura, problemas com o Supremo Tribunal Federal, ameaças de trocar ministros até chegar à agenda de costumes.

“Quem não aceitar (...) as minhas bandeiras (como) família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado, quem não aceitar isso está no governo errado. Esperem para 22, né?”, disse o presidente, numa alusão à disputa eleitoral de 2022.

Em vários momentos, Bolsonaro não deixou dúvidas sobre sua insatisfação com a falta de acesso a informações de inteligência. “Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha (...). Vai trocar, se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”, avisou.

O tom era de cobrança, no estilo “quem manda sou eu”. Nessa toada, Bolsonaro chegou a dizer que ministro elogiado pela imprensa perderia o cargo. Foi um constrangimento geral.

“Tem certos blogs aí que só tem notícia boa de ministro. Eu não sei como! O presidente leva porrada, mas o ministro é elogiado. A gente vê por aí “Ah (...), o ministério tá indo bem, apesar do presidente”. Vai pra puta que pariu, porra! Eu que escalei o time, porra!”, afirmou Bolsonaro.

O encontro mostrou um presidente descontrolado, cercado de auxiliares que batiam boca, como Paulo Guedes (Economia) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional). A disposição de intervir em ministérios para salvaguardar a família e os amigos e de armar o povo para se contrapor a autoridades e investir contra a quarentena ficou explícita. 

“Por exemplo, quando se fala em possível impeachment, ação no Supremo, baseado em filigranas, eu vou em qualquer lugar do território nacional e ponto final! O dia que for proibido de ir pra qualquer lugar do Brasil, pelo Supremo, acabou o mandato”, esbravejou. “(...) E eu não vou meter o rabo no meio das pernas”.

Integrante da ala ideológica do governo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, também dirigiu ataques à Corte. “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, insistiu. Weintraub comparou Brasília a um “cancro de corrupção” e reclamou de só levar “bordoada”, sendo alvo da Comissão de Ética da Presidência.

“Ao assistir ao vídeo em questão e ao ler a transcrição integral do que se passou em referida assembleia ministerial (...), constatei que, nela, parece haver faltado a alguns de seus protagonistas aquela essencial e imprescindível virtude definida pelos romanos como ‘gravitas’”, escreveu o ministro Celso de Mello na decisão que liberou o vídeo do fatídico encontro no Planalto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.