Uma outra ponte para o futuro

Seis meses depois da destituição da presidente Dilma, a retomada das manifestações de massa são sinal de que não era apenas seu governo que estava em questão

Brasilio Sallum Jr., O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

Seis meses depois da destituição da presidente Dilma, ativistas e seguidores de vários movimentos que se mobilizaram pelo impeachment voltam às ruas do País para protestar em favor da Operação Lava Jato e contra atos do Legislativo que possam enfraquecê-la. A retomada das manifestações de massa são sinal de que não era apenas o governo Dilma que estava em questão em 2015 e 2016. Estava em jogo, também, o regime político de 1988.

A maioria dos que protestam não quer derrubar a democracia, não deseja uma intervenção militar à antiga para resolver os problemas. O que a grande maioria exige é probidade e espírito público dos nossos representantes políticos. Essa exigência mesma é fruto da democratização da sociedade, da emergência de uma cidadania ativa que demanda um Estado e uma representação política ajustados àqueles valores. 

Infelizmente, esses movimentos – inspirados e estimulados pelos promotores da Lava Jato – têm se restringido à exigência de penalização dos desvios e à demanda de leis mais severas para puni-los. Há mesmo que se punir desvios e aperfeiçoar as leis, ainda que seja preciso ter cautela em não ferir os direitos individuais ou permitir abusos daqueles que exercem autoridade. 

Mas está fazendo falta uma ponte para um futuro mais democrático, que torne mais fortes os vínculos entre representantes e representados. Desde 2013, várias ondas de mobilização e processos eleitorais estão, de uma forma ou outra, sinalizando o caráter insatisfatório do regime. O Senado começou uma reforma política que deverá, se aprovada na Câmara, reduzir o número de partidos e melhorar as condições de governabilidade e de representação.

Porém, além de incerto, isso é pouco e não ocupa lugar importante na agenda. Falta liderança que faça disso um alvo coletivo a atingir. A obsessão do governo Temer pelo ajuste fiscal – certamente necessário – talvez tenha feito esquecer que nem só de pão vive o homem, ainda mais que este vai custar a chegar.

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