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Uma no cravo, outra na ferradura

Se não há dois PTs nem dois PSDBs, a conclusão é de que a relação entre eles, conturbada desde sempre e pior a cada mandato de um e de outro, sofre um particular surto de esquizofrenia nesta época de crises pululando de todos os lados, caindo na cabeça do PT e deixando o PSDB tonto.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 04h00

Aplausos para a tentativa de consenso entre o governo do PT e caciques do PSDB para uma solução decente na delicadíssima questão da redução da maioridade penal. E muitas dúvidas sobre a investida de ontem dos tucanos contra Lula e outros símbolos petistas na CPI da Petrobrás.

Na terça, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reuniu-se com o governador Geraldo Alckmin. Na quarta, com o senador José Serra. Dos encontros, até onde a vista alcança e os ouvidos captam, deve sair um projeto de meio-termo para a maioridade penal que possa adequar a lei à realidade brasileira, mas sem transformar jovens negros e pobres em vilões nacionais e troféus contra a violência. 

Em resumo, o governo encampa a proposta tucana de manter os 18 anos, mas com possibilidade de julgamento pelo Código Penal – portanto, como adultos – de menores entre 16 e 18 que cometam crimes bárbaros, como assassinatos. Também seriam aumentados os prazos de apreensão de menores, limitados hoje pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) a três anos. Eles podem ir a oito anos, como propõe Alckmin, ou a dez, como prefere Serra.

É, sem dúvida, uma demonstração de civilidade política quando PT governista e PSDB oposicionista sentam-se à mesa para buscar consensos em questões que dizem respeito à Nação e ao futuro. Ao mesmo tempo, porém, o pau quebrou ontem na CPI da Petrobrás, onde os tucanos lideraram uma farra de convocações (provocações?) aos petistas. 

Numa tacada só, a CPI convocou o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff em 2010, José de Filippi. Além disso, determinou a quebra de sigilo de José Dirceu, ex-presidente do PT, e uma acareação entre o ex-tesoureiro João Vaccari Neto e os delatores da Lava Jato Pedro Barusco e Paulo Roberto Costa, ambos do antigo alto escalão da Petrobrás.

Uma no cravo, com a negociação da maioridade penal, e outra na ferradura, com a investida contra Lula e símbolos petistas no mesmo dia do início do congresso do PT em Salvador. Foi por acaso?

Nessa relação esquizofrênica entre PT e PSDB, o fiel da balança é... o PMDB. Enquanto o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, fustiga o principal aliado, articulando redução do poder de Michel Temer, vice-presidente e coordenador político, os pemedebistas dão o troco no Congresso. Por exemplo, aliando-se ao PSDB na CPI para empurrar o PT contra a parede. Alguém precisa insistir com Mercadante que o PT tem de pisar em ovos para não atrair a ira do parrudo e suscetível PMDB.

Mesmo saco. O PT atira para todo lado em Salvador, sem saber qual o seu alvo no presente e quais seus objetivos e suas chances no futuro. Não importa quantas tendências haja, quantos documentos sejam escritos, a verdade surgiu nua e crua em duas frases, ambas publicadas aqui no Estado. 

O alerta do líder do governo na Câmara, José Guimarães: “Só tem Lula em 2018 se tiver Dilma em 2016, 2017”. (Poder-se-ia acrescentar: Dilma e Joaquim Levy...). E a advertência de José Dirceu, o que mais pagou o pato até agora: “Estamos no mesmo saco, eu, o Lula, a Dilma”. É de uma estridência ensurdecedora.

Reforma. A reforma política está reformando o quê? Nada, exceto o que não devia: a reeleição, um instrumento legítimo para que governantes bem-sucedidos disputem novo mandato e os eleitores tenham o direito de reconduzir governantes bem-sucedidos. E os mandatos de cinco anos para todos? Faltou a Câmara combinar com os adversários: os senadores, que têm oito anos hoje. As chances de passar no Senado são perto de zero.

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