Uma mulher de estilo

Falar de Ruth Cardoso é também falar da beleza - e de quem sabia ser elegante com recato e simplicidade

Maria Ignez Barbosa*,

24 Julho 2008 | 11h20

Hoje dedico a coluna a uma pessoa muito especial, cuja morte, súbita e recente, comprovou que no imaginário popular ela já era figura simbólica e icônica. Ao homenagear Ruth Cardoso, amiga e, digo com faceirice, também leitora desta coluna, não creio estar fugindo das questões estéticas e decorativas próprias do caderno. Pois falar de Ruth é também falar de beleza - aquela da integridade e da ética - e também de estilo, aquele da elegância de ser com recato, dignidade e, acima de tudo, simplicidade.   Tive a oportunidade de privar de sua amizade e, portanto, o privilégio de poder guardar na memória a lembrança de momentos e ocasiões não apenas diversos e agradáveis, mas também enriquecedores, onde aprendi a querer-lhe bem e a tê-la como uma espécie de norte. Quando a conheci, Fernando Henrique Cardoso ainda não era político. Brasília, onde então morava com meu marido diplomata, não parecia atraí-la, muito ao contrário. Lembro quando me disse, o marido já em campanha para o Senado, que não iria para o palanque pois era ele o candidato, não ela. No governo Sarney, ainda morando em São Paulo, lembro de encontrá-la no Ministério da Justiça quando da posse da primeira presidente do Conselho Nacional da Mulher. Fiel ao gênero de militante pela conquista de maior atuação da mulher na sociedade, lá estava ela, de tailleur azul-marinho, simples e elegante. Ouvi de uma amiga que não a conhecia: "Mas como a doutora Ruth é bonita!".   Quando FHC virou ministro das Relações Exteriores, no governo Itamar Franco, Ruth foi à Brasília conhecer e dar um jeito no apartamento funcional que ele ocuparia, uma vez que o governo anterior acabara com as casas oficiais destinadas aos ministros de Estado. Para meu espanto, pois nunca vira em Brasília um ministro do Exterior sem vários empregados domésticos à disposição, ela me disse, diante do microondas, que a empregada não precisaria ficar até a noite, pois o marido sabia esquentar a comida. Ruth, àquelas alturas, ainda não cedera completamente à idéia de mudar-se para Brasília, mas também nunca descumpriu do que entendesse ser seu papel como companheira de FHC, não importa fosse ele ministro das Relações Exteriores, da Fazenda e, depois, duas vezes presidente da República. Se fugia ao padrão de alinhamento automático da mulher ao cargo do marido - não era sem razão que brigava com o rótulo de primeira-dama -, fazia o que julgava ser correto e solidário.   Na Presidência, como bem se viu e se sabe, veio a identificar um espaço onde pôde atuar e ser útil à sociedade - não um espaço de vaidade, aberto à bajulação ou que lhe servisse de trampolim para ambições pessoais. Assim como batalhou para a formação de parcerias produtivas e eficientes entre o setor público e o privado, sabia não confundir, na vida pessoal, o público do privado e tratou de se manter distante dos holofotes, preservando o espaço familiar onde filhos e netos tinham sua atenção constante e eram fonte de genuíno prazer. Assim inovou e é modelo exemplar para novas gerações de mulheres que se desejam profissionais, atuantes e conscientes de um papel bem próprio na sociedade.   Paixão por museus   Quando FHC foi eleito presidente, meu marido era embaixador em Londres e foi à Inglaterra, para nossa satisfação, a primeira visita oficial ao exterior do casal Cardoso, em 1995. Brincamos de experimentar chapéus, pois rezava o protocolo que, na cerimônia dos 50 anos do fim da Segunda Guerra, razão da viagem, a rainha presente, eles deveriam cobrir a cabeça das mulheres. Houve outras passagens por Londres, inclusive a visita de Estado, em 1997, em que foram hóspedes no Buckingham Palace. Foi quando receberam a rainha e vários membros da realeza e do governo para um jantar de retribuição na sede de nossa embaixada.   Vi Ruth encantar-se com coisas belas, mas nunca a vi deslumbrada, fosse com reis, rainhas, príncipes ou princesas. Preferia as exposições nos museus a bater pé em lojas, mas podia se deixar encantar por uma roupa de um designer, por um broche original de artesão, um belo xale indiano ou objetos de bom design, como os da loja Conram, onde fomos atrás de vasos de flores modernos para enfeitar a mesa da sala de jantar íntima do Alvorada. Foi durante a gestão FHC, sob a orientação e a sensibilidade de Ruth, que o palácio em Brasília ganhou móveis de bom desenho, adequados à sua arquitetura, e nos jardins foram colocadas belas esculturas cedidas por artistas plásticos e galerias. Com ela nada de grifes famosas. Seu estilo próprio as dispensava. Na visita de Estado para o grande jantar no Palácio de Buckingham, vestiu um longo bordado vermelho escuro, do brasileiro Lino Villaventura. Orgulhosa da elegância da nossa primeira-dama e, sabendo que não gostava da expressão, brinquei que ela era a nossa rainha. Fez careta.   Nas vezes em que se hospedou conosco, em Londres e depois em Washington, sempre vi Ruth disposta a um concerto, uma peça de teatro, um lugar onde se pudesse comer bem e sem ostentação. Refinada, gostava da boa cozinha e sabia ver sofisticação numa bem feita comida caseira. Na embaixada em Washington, lembro como curtiu uma boa omelete baveuse no andar de cima, enquanto na grande sala de jantar rolava um jantar formal de homens. Depois de deixarem a Presidência, ela e FHC foram convidados pela Library of Congress, na capital americana, para um estágio sabático de alguns meses. Viveram num flat e, tranqüilamente, o casal ia e vinha de metrô, apesar do desejo de meu marido em deixar-lhes um carro à disposição. Um dia, ainda nos anos 80, passou-me o endereço de uma cozinheira em São Paulo a quem nunca deixou de encomendar deliciosos cuscuz paulistas.   Ao longo dos anos em que FHC foi presidente, não a vi mudar ou deixar de ser a Ruth que havia conhecido tantos anos antes. Ainda durante o mandato presidencial do marido, lembro-me quando, como professora visitante, foi passar dois meses na universidade de Berkeley, em São Francisco, onde já havia lecionado. Num fim de semana fomos visitá-la e levamos a ela e à sua amiga Lourdes Sola para jantar. Descobri que ia a pé para o campus todos os dias.   No apê, nada de ostentação   No apartamento da rua Rio de Janeiro, pós-presidência, foi mantido o mesmo clima daquele da rua Maranhão de tempos pré-poder. A mesma simplicidade, bom desenho, cortinas rolô brancas em lugar das de bambuzinho de antes, objetos com história de vida e nenhuma ostentação. As cadeiras da sala de jantar, do designer Carlos Motta, são as de sempre. As poltronas Mole, de Sergio Rodrigues, também, assim como a de balanço e o sofazinho Thonet. As duas gravuras de Miró, compradas num sebo quando a filha Beatriz estudava na Espanha, seguem na parede e, espalhados, os vasos e garrafas de vidro artesanal de que tanto gostava. Quando meu marido e eu, já de volta ao Brasil e morando em São Paulo, ali fomos jantar, comemos o mesmo cuscuz da cozinheira a quem costumava encomendar desde os tempos de rua Maranhão. Era a Ruth de sempre. Um dia, disse preferir quando minhas colunas no Casa& falavam sobre designers legendários, mais do que quando tratavam de outros temas. Nem ela nem eu poderíamos imaginar que Ruth Cardoso seria hoje o meu assunto.   Na noite em que faleceu, oferecendo ao filho Paulo Henrique uma fruta na cozinha, Ruth estava feliz, pois tivera alta do hospital. Planejava a agenda do dia seguinte e delicadamente respondeu a vários e-mails. Foi vivendo que ela nos deixou. Para Ruth, pensei na frase de Guimarães Rosa em seu discurso de posse na ABL: "As pessoas não morrem. Ficam encantadas".   * Maria Ignez Barbosa, jornalista, foi embaixatriz do Brasil em Londres e Washington. Atuou nos jornais Correio da Manhã e no Jornal do Brasil. É colunista no O Estado de São Paulo e autora de "Gentíssima" (Editora Ateliê)   Nota da Redação: este texto foi originalmente publicado em O Estado de S. Paulo em 6 de julho de 2008

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