Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Uma dupla de estilos opostos na Lava Jato

Enquanto Dallagnol fala em influenciar eleição, Moro diz não ser um ‘motivador de multidões’

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 00h41

O juiz federal Sérgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol são figuras centrais de uma mesma operação anticorrupção, costumam dividir ideias parecidas sobre ela e, normalmente, aparecem como sinônimos de uma causa única: a Lava Jato. Mas, na terça, 24, no auditório do Grupo Estado, durante o evento que discutiu as diferenças e semelhanças entre a operação italiana Mãos Limpas e a Lava Jato, eles puderam mostrar que são donos de estilos bem diferentes.

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Enquanto o juiz afirma não ser um “motivador de multidões”, o procurador parece ficar confortável no papel de alguém que pode “motivar” e até influenciar os rumos políticos do País. No palco, de frente para a plateia, reproduziram a clássica dinâmica das duplas: um é mais contido enquanto o outro é extrovertido; um mede palavras, outro se deixa levar pelo calor do momento. Fórmula parecida com a de qualquer parceria histórica – pensem em O Gordo e o Magro, John Lennon e Paul McCartney, Pelé e Coutinho, Sherlock Holmes e Watson... 

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O primeiro a subir no palco foi Dallagnol. Desta vez, sem nenhum PowerPoint, enumerou as conquistas da Lava Jato, como ter descoberto mais de R$ 6 bilhões em propinas na Petrobrás, ter recuperado mais de R$ 10 bilhões aos cofres públicos e aplicado penas que somam mais de mil anos de prisão. Dallagnol gosta dos números e de imagens impactantes e superlativas. “O esquema da Petrobrás era apenas a ponta de um iceberg” ou “Ministros do STF soltam e ressoltam presos”, afirmou no evento. 

Em comparação, Moro parece controlar sua fala com precisão. Limitou-se, em um primeiro momento, a seguir à risca o tema do fórum, e focou nas comparações entre a Mãos Limpas e a Lava Jato. Ressaltou que a operação italiana foi um sucesso – apesar dos casos de corrupção que reapareceram ao longo do tempo.

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Quando se arriscou a falar de algo mais factual, Moro pontuou que se tratava de caso já julgado. O juiz fez questão de analisar (e defender) as prisões preventivas e as delações premiadas do ponto de vista estritamente técnico.

Como orador, Moro evita as metáforas. Claramente, preocupa-se com o que diz e com sua repercussão. Embora provocado, não citou o nome de nenhum político. Falou do ex-ministro Geddel Vieira Lima sem pronunciar o seu nome. A palavra “Lula” também não saiu de sua boca mesmo quando confrontado. Não teve nenhum problema em dizer: “Isso eu não posso responder”.

Em um dos poucos momentos em que pareceu descontraído, o juiz usou o humor para defender sua postura técnica: “Não estou falando de deterioração moral, não estamos falando de altura de minissaia, estamos falando de crimes de corrupção. Estamos falando de um fenômeno jurídico”.

‘Cachorrinhos’. Já Dallagnol abraça as metáforas sem pudor. Ao falar de uma suposta falta de esperança da população em relação aos resultados da Operação Lava Jato, contou a história de cachorrinhos que ficavam passivos ao tomar choques em um experimento científico. 

Moro parece tentar fugir do protagonismo que tem na operação. “Sou um juiz, não um motivador de multidões”, disse ao ser questionado sobre o que fazer para incentivar a participação popular em protestos. Dallagnol parece mais à vontade no papel de fustigador e de protagonista. A impressão que deixa é a de que gostaria de ser ainda mais veemente – se a sua posição assim o permitisse.

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Se, por um lado, Moro tenta se posicionar fora do embate político, Dallagnol não teme pisar nesse ringue. Ele não tardou em afirmar que “não há solução fora do sistema político”. O procurador também chegou a dizer que “a questão agora é escolher candidatos que apoiem o combate à corrupção” e mostrou preocupação com a sociedade que, segundo ele, parece não perceber “o grande salto que podemos dar em 2018”.

Em um dos momentos mais enfáticos, afirmou: “O Parlamento continua legislando em causa própria”. A diferença de estilos pode ser explicada pelo papel que os dois desempenham: um é juiz e o outro é procurador. Mas, para além disso, Dallagnol demonstra não negar a política. Moro se esquiva.

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