Análise: Uma articulação desafiadora

O presidente da Câmara dos Deputados é figura fundamental no funcionamento do presidencialismo de coalizão brasileiro, mas Eduardo Cunha (PMDB-RJ) levou as vantagens do cargo ao extremo. Apesar de ser do PMDB, ele se indispôs diretamente com o Executivo desde sua eleição, ao derrotar o candidato do Palácio do Planalto, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e usar de suas prerrogativas para pressionar o governo enquanto pôde.

Glauco Peres da Silva, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2016 | 05h15

Buscou manter privilégios, ao que parece. Reinterpretou o regimento, quebrando práticas comuns de seus antecessores para encaminhar projetos que lhe eram caros. Formou um grupo de deputados fiéis a si, enfraquecendo as lideranças partidárias. Foi útil à boa parte da oposição dentro e fora da Câmara que via vantagens no enfraquecimento da ex-presidente Dilma Rousseff. Sua atuação foi truculenta e desafiou desafetos.

Salta aos olhos a sua capacidade de mobilização dos demais parlamentares. Não se sabe ao certo a origem desta situação, mas se suspeita que passe tanto pelo apoio financeiro nas campanhas quanto em possíveis ações ilícitas.

O principal ponto é que Cunha é produto do meio político e, apesar de uma habilidade excepcional em articular em prol de seus interesses, não deve ser visto como uma exceção. Parece cedo para afirmar que seu futuro como político chega ao fim. Isso ainda depende do andamento das investigações da Lava Jato. Certamente, porém, continuará lutando da forma mais desafiadora que conseguir.

* GLAUCO PERES DA SILVA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

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