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Um Trump brasileiro?

Quem achava impossível dar Trump agora corre para saber quem seria o 'Trump brasileiro'

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2016 | 04h00

A vitória de Donald Trump na maior potência mundial não só põe o mundo em suspenso, sem saber para onde estamos indo, como também deixa um rastro de erros de avaliação e uma penca de lições para pesquisas, analistas, acadêmicos e jornalistas. Além, claro, de mais uma vez colocar em xeque o sistema eleitoral norte-americano, que novamente elegeu para a Presidência o segundo colocado das urnas. A vitoriosa Hillary perdeu, o derrotado Trump ganhou.

O erro mais grave foi partir de uma premissa subjetiva: a de que a vitória de Trump seria um absurdo. Logo, a hipótese não existia. Lá se foi a racionalidade, que exige trabalhar os diferentes cenários, não só um. Foi correto criticar tudo o que tinha de ser criticado em Trump, mas foi errado ignorar as reais chances dele.

Mal comparando, ocorreu algo parecido em 2014 no Brasil, quando todos os analistas consideraram como verdades absolutas que a petista Dilma Rousseff daria um banho no Nordeste e o tucano Aécio Neves ganharia de lavada em Minas. A primeira hipótese se confirmou, mas Aécio perdeu no primeiro e no segundo turno em Minas e ainda perdeu o governo do Estado para o PT, o que fez uma enorme diferença no final.

Outra questão bastante discutida é se as pesquisas erraram ou não nos EUA. Fato: nenhum instituto, nenhum jornal, nenhuma TV previu claramente a vitória de Trump. Explicação: os institutos acertaram que Hillary teria mais votos populares, mas superestimaram a vantagem dela, trataram com descaso Estados chaves e não projetaram os efeitos dessa maioria no número de delegados, que é o decisivo.

“Houve um acerto brutal”, defende Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, com uma lembrança e uma certeza: se fosse no Brasil, a eleita seria Hillary, que teve mais votos; e “o FBI deu a vitória ao Trump, no mínimo consolidou a vitória dele”. Hillary estava 12 pontos à frente, 15 dias antes, mas caiu para três após o alarde do FBI em cima dos seus e-mails e chegou ao fim com menos de um ponto a mais que o republicano.

Apesar do “acerto brutal”, Montenegro aponta problemas na metodologia das pesquisas nos EUA. Um é que o voto é facultativo e o comparecimento foi bem menor do que o estimado, o que deturpa as previsões. Outro é a consulta por telefone fixo, que cada vez menos gente usa. Um terceiro é que, lá, eles trabalham com projeções sobre os indecisos, como se eles fossem acompanhar porcentualmente os decididos. O quarto é o “voto envergonhado”, quando o eleitor vai votar num candidato, mas não revela para não ficar “contra a onda”.

Mais uma comparação: em 1985, imprensa e analistas encantaram-se com a candidatura de Fernando Henrique Cardoso para a Prefeitura de São Paulo, mas quem ganhou foi Jânio Quadros, desmentindo as pesquisas. Aliás, FHC era tão “certinho” quanto Hillary, Jânio era tão excêntrico quanto Trump e só se falava de Jânio, como só se falou de Trump. É a propaganda pela repetição: “Falem mal, mas falem de mim”. 

No mais, a eleição de Trump joga ainda mais incertezas no cenário de 2018. Cá, como lá, há uma exaustão com os políticos e ainda há a Lava Jato, 12 milhões de desempregados, inflação e juros altos. Os mesmos analistas que consideravam Trump absurdo, ou não o consideravam, agora procuram adivinhar quem poderá ser o Trump brasileiro. 

Arigatou. Surpreendentemente, não houve nota oficial depois dos encontros de Michel Temer com o imperador Akihiro e com o primeiro-ministro Shinzo Abe, em Tóquio. Motivo: o secretário-geral do Itamaraty, Marcos Galvão, descobriu na última hora que o texto acordado entre os dois países continha uma casca de banana: o apoio aos japoneses na disputa pelo Mar da China. Isso criaria sérios problemas com os chineses, maiores parceiros comerciais do Brasil. A nota foi parar no lixo.

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