Um sonho difícil de realizar

Um sonho difícil de realizar

Falta de escolas atrapalha os sonhos das crianças do Contestado; analfabetismo já era crítica por parte dos militares

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 19h18

Um relatório de Hermínio Castelo Branco, chefe da polícia militar na Linha Norte, de 25 de abril de 1915, denunciava um problema social da região: a falta de escolas. "Eis aqui um ponto luminoso de todo o Contestado: a ignorância. Uma zona regularmente habitada numa área de 30 léguas quadradas: nem uma escola, nem um livro!" Cem anos depois, nada mudou. O exemplo emblemático vem de Santa Maria, último reduto caboclo. A única escolinha que existia ali fechou as portas no ano passado - hoje, o espaço é ocupado por uma igreja evangélica.

 

A construção de madeira e coberta de telhas foi construída pelo agricultor Atair Meirelles Cruz, de 65 anos, para acomodar as crianças das famílias dos sítios da região. Lindamir, a professora, morreu de enfarte. Por ordem das autoridades de Timbó Grande, os estudantes foram transferidos para outra escola, a 20 quilômetros. Um ônibus faz o transporte. Os pais e as crianças reclamam das condições do carro e da distância e da estrada mal conservada. O espaço da antiga escolinha passou a ser utilizado pelo pastor Manoel, de Timbó Grande, que todas as quartas realiza celebrações.

 

A falta de escolas atrapalha os sonhos das crianças do Contestado. Numa região em que a única opção de trabalho são as plantações de pinus - onde só homens são empregados -, Priscila do Nascimento, 10 anos, de Porto União, e Caroline de Paula, 7 anos, de Calmon, pretendem ser professoras. Os pais delas ganham pouco mais de um salário mínimo. Já Marcos Manoel dos Anjos, 9 anos, de Lebon Régis, quer ser delegado - influência do avô, que foi auxiliar de um delegado da cidade.

 

O sonho deles dificilmente será realizado. As três crianças têm a mesma idade, na época do conflito, dos três personagens centenários que ilustram este caderno. Maria Trindade (105 anos), Sebastiana Medeiros (102) e Altino Bueno da Silva (108) são, respectivamente, a Priscila, a Caroline e o Marcos de cem anos atrás.

 

Falta de educação. Após a tomada e a destruição de Santa Maria, oficiais do Exército relataram ter incendiado milhares de casas e povoados "infestados" de jagunços. Num telegrama a Manoel Onofre, o capitão Leopoldo Itacoatiara de Senna, em 15 de fevereiro de 1915, afirmou que a ação de incendiar as casas era uma represália aos jagunços. "Como legitima reprezalia, fui incendiando todas as casas encontradas nessas regiões dignas, sem duvida, de ser habitadas por homens intelligentes, laboriosos e fortes", relatou o capitão, em seu acampamento na vila de Canoinhas.

 

Um relatório escrito por Hermínio Castelo Branco, chefe da polícia militar na Linha Norte, de 25 de abril de 1915, incluído no acervo de documentos do Contestado do Exército, admitiu o problema da falta de educação. "O meu cargo e minha função eram mais de observação e de analise do que de violência, visto tratar-se de uma zona habitada por gente sem educação e analphabeta. Eis ahi o ponto luminoso de todo o contestado - a ignorância. Uma zona regularmente habitada numa área de cerca de 30 léguas quadradas; nem uma escola, nem um livro!"

 

Castelo Branco faz críticas à "ambição" dos governos do Paraná e de Santa Catarina pelas terras do Contestado. "Zona fértil, zona poderoza, zona exhuberante, zona cheia de vida. A natureza como um chuveiro de ouro derramando sobre esta grande extenção do território nacional excita o egoísmo e ambição dos dois Estados", escreve. "A grande questão aqui no Contestado onde o Exército Nacional foi atirado como o "bode expiatório" não é da linha divizória nem do estragado. O que se discute é a herva-matte - o pinheiral - a madeira de lei, a fertilidade e a riqueza do terreno; fosse o Contestado um terreno estéril, nada havia."

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