Um quilombo no fogo cruzado

Participação de negros no conflito reascendeu o ódio e trouxe de volta a época escravocrata

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 19h58

A guerra alterou a vida de comunidades tradicionais do Contestado e tornou ainda mais difícil o dia-a-dia de homens e mulheres excluídos. Rossio era um vilarejo de negros descendentes de escravos que mantinha poucas ligações com o povoado mais próximo, São João dos Pobres, atual município de Matos Costa, em Santa Catarina. Os bailes no salão de madeira perto da igreja eram proibido para brancos e caboclos. Maria de Jesus Abel, 69 anos, nasceu no povoado. Neta do líder maior, João Pedro, ela lembra que o isolamento dos negros era uma resposta ao tratamento recebido dos homens de pele mais clara. "Era muito desprezo", lembra a mulher, que hoje vive no centro de Matos Costa.

 

O grupo de negros só se "misturou" com os caboclos e brancos após a chegada de rebeldes. "Uns negros entraram no movimento dos fanáticos porque foram forçados. Outros resolveram ir por revolta", diz um dos homens da comunidade. "Depois que os jagunços vieram de São João de Cima, os negros se misturaram com os caboclos. Aí era uma guerra só, misturou tudo."

 

 

A participação dos negros na guerra acirrou o ódio dos povoados da região ao Rossio. "No tempo da guerra, os negros voltaram a ser caçados, como na época da escravidão. Eles matavam e jogavam dentro de poços", relata Maria de Jesus, uma história que ouviu da mãe Otália, casada com Pedro, filho de João Pedro. "Era o tempo em que ela e outras mulheres não podiam secar a farinha. Se fizesse fogo, chamava a atenção. Todos viviam no mato em volta do Rossio."

 

João Pedro foi um dos poucos homens do Rossio que voltaram para casa. Após o final da guerra, a comunidade viveu um refluxo. O antigo quilombo sofreu ataques da polícia como no tempo das fazendas escravocratas. Maria de Jesus lembra do avô. "Era homem bom para conversar. Mas não podia tirá-lo do sério", relata. "Como meu avô tinha sido jagunço, a mulher dele, minha avó Maria Ambrósio, os filhos e netos viviam com medo de ser atacados."

 

As poucas ligações do Rossio com o povoado de São João dos Pobres foram cortadas. Os negros não podiam mais vender queijos, farinha e milho para os brancos. Com o tempo, fazendeiros chegaram para fazer pressão. Os negros foram vendendo suas terras. Os fazendeiros soltaram bois nos sítios e depois em áreas comuns da comunidade, como o pocinho sagrado onde São João Maria teria bebido água, a praça da igreja e uma casa conhecida por ser pouso de parada do "gritador", mito que assustava as crianças nas noites de lua cheia - os sobreviventes da guerra, com seus gritos nos pesadelos da madrugada, foram confundidos com a figura lendária. O templo e o salão de baile do Rossio foram destruídos para aumentar o pasto. Mais tarde, as marcas das ruelas desapareceram. Pinus e eucaliptos tomaram o espaço dos bois e apagaram as ultimas referências do vilarejo.

 

 

Da estrutura física do Rossio sobrou apenas um cemitério, localizado a dois quilômetros do antigo quilombo, onde foram enterrados os "troncos" da comunidade. Lá estão os túmulos de João Pedro e outros negros "jagunços". Mal conservado, o cemitério está dentro de uma propriedade particular. Os donos pretendem derrubar os muros de pedra erguidos no final do século 19 para aumentar a plantação de pinus. As árvores de madeira comercial cercam o cemitério.

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