Um protesto movido pelo descompasso do próprio governo

Uma questão surpreendeu a todos no final deste domingo. Não foi a vitória do Corinthians e muito menos a chuva que caia sobre São Paulo. O que acabou causando espanto foi o tom do protesto de parcela da sociedade contra Dilma Rousseff, simultâneo ao discurso presidencial. Pensar sobre o tamanho e as consequências desses protestos, que foram estimulados por meio das redes sociais, mas que nem por isso tira o grau de legitimidade e espontaneidade dos mesmos, é um grande desafio.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA FGVSP

09 de março de 2015 | 23h44

Primeiro é preciso destacar que Dilma não está, nesse momento, sendo acusada formalmente de nada que possa colocar em risco o seu mandato, mas isso parece não importar para quem protestou. O mal-estar social com o presente e as expectativas ruins acerca da economia do País dizem mais do que qualquer suspeita de malfeitos. Afinal, uma economia robusta conta muito em política.

De onde vem essa indignação social? Sobretudo do enorme descompasso entre o discurso eleitoral e o atual momento econômico. Passamos muito rapidamente de uma promessa de estabilidade para um futuro incerto. Convocar a população para dividir sacrifícios foi um gesto inadequado para quem dizia que o País estava no caminho certo. Provavelmente a oposição seguiria o mesmo receituário, mas o que pesa, nesse caso, é a impressão de que a dura realidade foi negada com fins meramente eleitorais.

Por fim, o pronunciamento botou pilha nas manifestações convocadas para os dias 13 e 15 que se aproximam, acentuando um conflito que beira a irracionalidade e que cada vez mais se aproxima da metáfora de um Fla-Flu. Mesmo que o dia 13 tenha êxito, ele pode passar como uma mobilização chapa-branca, ao passo que o dia 15 poderá ser tratado como uma manifestação da sociedade agora engrossada por alguns que antes votavam no PT e que parecem tomados por um sentimento de indignação. Não se pode dizer, em hipótese alguma, como querem petistas, que a manifestação convocada para o dia 15 reunirá somente “golpistas” em potencial.

O governo, e o PT, precisam reconhecer que a atual crise política vai além da disputa eleitoral. Se continuar nessa tese, além de não conseguir fazer autocrítica, continuará se recusando a enxergar que a desaprovação à gestão Dilma e ao partido que está desde 2003 no poder também são originadas de cidadãos não filiados a legendas políticas. O governo, e o PT, precisam assumir que o País desenhado no processo eleitoral era outro e que não assumir isso no momento adequado foi um grande erro.

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