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Um País de reféns

Movimento dos caminhoneiros trouxe inovação perigosa: propôs a derrubada do governo

João Domingos, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2018 | 03h00

Ao contrário de outros protestos comandados por centrais sindicais e categorias de profissionais, e até algumas tentativas de greve geral – todas fracassadas –, o movimento dos caminhoneiros não só paralisou o Brasil, infernizou como pôde a vida das pessoas e causou ao País e seus cidadãos prejuízos de dezenas de bilhões de reais (prejuízo que continuará a ser pago pela sociedade até não se sabe quando). Tal movimento trouxe ainda uma inovação, perigosa inovação: um embrulho contendo reivindicações econômicas junto com a derrubada do governo. Um governo constitucional, é preciso dizer. Pode até ser acusado pelo PT e partidos próximos de ter se beneficiado de um golpe parlamentar, pois o vice, do MDB, de fato assumiu o lugar da titular. Mas isso é uma questão a ser resolvida entre eles, velhos parceiros. Em termos legais, cumpriu-se o que a Constituição determina: em caso de impedimento do presidente, assume o vice.

Tudo isso que foi escrito nessas primeiras linhas diz respeito aos partidos, às suas velhas rixas, suas rasteiras e sua previsibilidade. O que aconteceu no movimento dos caminhoneiros foi diferente. E por isso mesmo deve ser olhado com muita atenção pelos políticos, candidatos à Presidência e dirigentes das instituições que formam os pilares do Estado Democrático de Direito. Quem pediu a destituição de Michel Temer e o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional não foi um partido político. Foram vozes pertencentes a pessoas que encheram o saco dos políticos, dos ministros do STF, do presidente da República, da democracia. E que acham que só um regime de força pode fazer alguma coisa por eles. Daí, a insistência intervencionista, as faixas pela volta dos militares ao poder, o desprezo pelo direitos coletivos, o desrespeito às decisões colegiadas.

O pensamento não é novo, pois as tendências autoritárias existem desde que o mundo existe. O novo é a forma de organização, montada a partir das redes sociais e sem um comando aparente. Em vez das palavras de ordem que costumam animar militantes de organizações políticas, sociais e sindicais em manifestações na Esplanada dos Ministérios, na Avenida Paulista ou na Cinelândia, o grito do movimento dos caminhoneiros soou a partir do ronco do motor. Cada jamanta se transformou numa arma. E o País, governo, sociedade, todo mundo se tornou refém. 

Que lição se pode tirar de um movimento capaz, esse sim, e não a CUT e assemelhados, de fazer a greve geral? Em primeiro lugar, é preciso que as autoridades prestem atenção nas mudanças que ocorrem no mundo e dialoguem. Sabe-se que por duas vezes a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) pediu audiência ao governo federal para fazer suas legítimas reivindicações. Sem êxito. O diálogo, fundamental na democracia, foi ignorado.

Em segundo lugar, qualquer um que tenha o desejo de chegar à Presidência da República precisa entender que no passado os dirigentes brasileiros cometeram um terrível erro de estratégia, ao concentrar o sistema de transporte nas rodovias. É uma armadilha que sempre vai pegar o governo, seja qual for, caso caminhoneiros decidam por bloquear estradas. 

Só é possível sair dessa armadilha se, mesmo com atrasos, voltarem os investimentos em outros sistemas de transportes, como o ferroviário e o aquaviário.

Sem saída diante do caos, o governo brasileiro capitulou. De todas as formas. Diante dos caminhoneiros, com medidas que, para compensar os subsídios ao diesel obtido pelo movimento que parou o País, vão retardar pesquisas em inovação. E diante da união esquerda/direita pelo controle da Petrobrás, levando ao pedido de demissão do presidente da empresa, Pedro Parente. 

O mundo muda. Os velhos costumes políticos, não. 

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