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Um País como refém

Em cativeiro na disputa, parte do eleitorado sofre de Síndrome de Estocolmo

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2018 | 03h00

Na mesma entrevista em que disse que o PT mais cedo ou mais tarde vai “tomar o poder”, pelo voto ou não, José Dirceu disse, também, que Jair Bolsonaro não é problema do PT, e sim do PSDB e do que chama de “direita”. O que aquele que se pretende, mesmo na decadência, ser o formulador do petismo, quer dizer com isso? O óbvio: que no roteiro que traçou para a volta ao poder tendo Fernando Haddad como hospedeiro, Lula escolheu Bolsonaro como adversário. 

E vai tendo sucesso em uma e em outra estratégia, com a ajuda incrível de uma parcela da elite que nem percebe o papel que está cumprindo para aquele a quem odeia.

A polarização do primeiro turno, mostrada nas pesquisas até aqui, entre dois extremos não só do espectro ideológico, mas também da relativização das regras do jogo, é, ela também, resultado do plano que Lula traçou bem antes de ser preso e executou com maestria direto do cárcere em Curitiba.

Desde sempre ele soube que a fórmula para tentar voltar ao poder depois do impeachment passava por apagar Dilma Rousseff da foto dos governos petistas. Para isso, contou com a ajuda inestimável de Michel Temer, que, afundado em denúncias de corrupção, conseguiu não só fazer uma parcela significativa da população esquecer o desastre que foi sua companheira de chapa quanto ter saudade daquele que a inventou.

O plano de Lula incluía, também, ter um dublê de si mesmo que em nada lembrasse a malfadada experiência de Dilma. O figurino de Haddad é diferente do da ex-presidente: fala manso nos ambientes em que precisa se mostrar moderado e fala rouco e grosso quando emula o chefe em cima do caminhão de som. 

Resultado: cresce no Nordeste e nos segmentos de baixa renda de forma a assegurar uma vaga no segundo turno e pode ser aceito pelos setores moderados devido à rejeição do adversário e a promessas pouco críveis de aceno ao liberalismo na economia e ao respeito às regras do jogo na política. Por que pouco críveis? Porque em tudo diferem do que está consignado no plano de governo que ele, Haddad, coordenou. E porque toda a trajetória do PT desde o impeachment e da prisão de Lula, presente diariamente no discurso de suas outras lideranças ainda hoje, vai no caminho da ruptura com essas regras, cabresto à imprensa e ao Judiciário e dirigismo dilmista na economia.

Mas mesmo esta dupla personalidade encarnada por Haddad desde que foi posto no lugar de Lula foi pensada pelo chefe. E por quê? Porque o plano ideal vislumbrava que Bolsonaro se manteria resiliente durante a campanha, fruto justamente da outra face da doença legada pelo PT ao País nos últimos 16 anos: o antipetismo cego.

Não à toa, os petistas se eximiram de críticas mais contundentes a Bolsonaro, mesmo diante das pautas mais contrárias do deputado e ex-capitão àquelas caras à esquerda. Afinal, o objetivo maior fala mais alto: levar o barco placidamente ao encontro marcado no segundo turno, e deixar a rejeição a Bolsonaro ser inflada por ele mesmo e seus aliados, sob o beneplácito entusiasmado de uma elite estudada e endinheirada que parece em transe hipnótico.

Assim, a maioria da população e do eleitorado que não está entrincheirada em nenhum dos extremos regressivos e ameaçadores à democracia segue refém das estratégias de Lula e de Bolsonaro, o antípoda por ele apontado – em tudo semelhante àquele que escolheu Dilma em 2010 e Haddad em 2012 e 2018.

O que é em todos os aspectos preocupante é que, num cenário em que são todos reféns, um contingente imenso sofre de Síndrome de Estocolmo e, se não se curar dela a tempo, pode fazer com que o cativeiro do País perdure pelos próximos quatro anos.

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