Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Um novo Congresso, mas com a mesma cara de sempre

Rodrigo Maia é o favorito na Câmara, e Renan Calheiros pode chegar pela quinta vez à presidência no Senado - por incrível que isso possa parecer, talvez essa seja uma boa notícia para o governo de Jair Bolsonaro

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2019 | 17h35

Caro leitor,

No capítulo anterior, mostramos que o Congresso iria testar a força do presidente Jair Bolsonaro, aproveitando que ele enfrenta uma situação política complicada, com as suspeitas sobre as movimentações financeiras de seu filho Flávio Bolsonaro. E, agora, a dois dias da eleição para as presidências da Câmara e do Senado, já vai ficando claro que cara vai ganhando esse “novo Congresso”.

Eleitas sob o signo da renovação e da rejeição da velha política, as duas casas caminham para ter a mesma cara de sempre no seu comando. Na Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) é franco favorito para se reeleger. No Senado, Renan Calheiros (MDB-AL) poderá chegar pela quinta vez à presidência. E, por incrível que isso possa parecer, talvez essa seja uma boa notícia para o governo de Jair Bolsonaro.

Se forem eleitos, Maia e Renan trazem para a mesa de discussões a experiência de negociação política necessária para aprovar propostas importantes para o governo como as reformas previdenciária e tributária, por exemplo. Experiência política é exatamente o que falta ao governo neste momento. Afinal de contas, até agora, a articulação política do Planalto segue capenga, incapaz de influir no jogo do Parlamento. Mais: Renan pode até “matar no peito” a eventual pressão que Flávio Bolsonaro poderá sofrer no Senado e que pode respingar no próprio governo. A editora do BR18 Vera Magalhães conta bem essa história aqui. E a pressão sobre o filho do presidente você pode acompanhar nesta reportagem.

Rodrigo Maia conseguiu organizar uma poderosa frente partidária em torno de sua candidatura à reeleição. Como é grande defensor da reforma da Previdência, sua eleição se torna o melhor trunfo no Congresso para o Planalto. Não é preciso repetir a importância que mercado e investidores dão à aprovação dessa medida. É a perspectiva de sua votação que tem empurrado a Bolsa de Valores a bater recordes de alta quase diários. O mercado entendeu isso e aposta em Maia como o grande fiador dessa operação. O colunista Fábio Alves mostra exatamente isso neste texto. Para o Planalto e para a economia brasileira, é insignificante Maia ser um representante da velha política diante da perspectiva positiva que sua reeleição traz para a reforma.

E não custa lembrar que essa votação é complicadíssima. O tema causa polêmica e desgaste político para os parlamentares. Além disso, a pressão de diversas categorias – especialmente a dos militares – é um obstáculo a mais para ser superado. Neste editorial, você pode ler mais sobre a atuação desses grupos receberem tratamento diferenciado na reforma. 

No Senado, a situação é mais complexa porque Renan carrega grande carga negativa sobre suas costas. Sua eleição pela quinta vez para comandar a Casa é o tipo de movimento que diverge de tudo o que Bolsonaro prometeu na campanha. Mas, caso seja eleito, sua utilidade para o Planalto poderá ser valiosa. Além disso, se for vitorioso algum candidato dito “mais independente”, alinhado com essa ideia de renovação, o governo correrá o risco de enfrentar muitas dificuldades para fazer valer sua agenda. Veterano na política, Renan tem atraído apoio da esquerda à direita dentro do Senado. Seu maior adversário poderá acabar sendo o voto aberto que vários partidos já planejam adotar. Com Renan desgastado diante da opinião pública, o voto secreto é a proteção perfeita para quem precisa votar nele mas não quer se expor. Se isso acabar, sua vitória passa a ser mais difícil. Na Carta do BR18, eu analiso um pouco mais esse cenário.

Com Bolsonaro ainda se recuperando da cirurgia feita na segunda-feira para a retirada da bolsa de colostomia, é ingenuidade imaginar que ele tenha muito o que fazer para interferir nesse jogo. Só que, diante do desafio de se aprovar as reformas para tentar retomar o crescimento do País, conviver com dois políticos capazes de entregar essa mercadoria, como Maia e Renan, pode ser um preço bem razoável para se pagar.

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