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Um homem de dignidade

Vinte anos se passaram. O tempo para quem chegou à minha idade não é sequencial, torna-se quase atemporal, abusando de contradições. Transforma-se em memória e se refaz nela.

Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 05h00

Recordo vivamente haver telefonado ao Ruy (Mesquita) para saber se cabia visitar o Julio Neto, que estava no hospital em situação delicada. Ele fora discreto a vida toda: por isso, poucas pessoas sabiam da doença. Ruy ficou de ver e mais tarde me disse: “Melhor não o visitar, respeitemos sua intimidade”.

A próxima notícia já foi a da morte. Ordenei que reorganizassem minha agenda e fui de Brasília a São Paulo para o enterro. No aeroporto, o inesperado: foi a única vez em que vi o avião presidencial arremeter ao tentar aterrissar. Outro avião, parece, atrasara a decolagem e dificultara nossa aproximação.

É também assim com a vida: os encontros e desencontros podem dever-se a acasos. Eu, na faculdade, sabia dos Mesquitas. Como não saber, se a USP era a menina dos olhos de Julio Mesquita Filho e do jornal?

Entretanto, às voltas com Marx e a dialética, eu guardava distância do liberalismo do jornal. Qual não foi minha surpresa quando, décadas depois , encontrei Julio de Mesquita Filho em Paris, assistindo a um seminário da Unesco, em maio de 1968, para homenagear o aniversário de O Capital, de Marx. Dr. Julio, ao saudar-me (eu estava no exterior para escapar do golpe de 1964), perguntou: “O senhor aqui?”. Retruquei: “E o senhor?”. Bons tempos, quando divergências de visão não impediam o diálogo nem afastavam convergências futuras.

Estas vieram com a outra geração. Fernando Pedreira, que fora mais ardoroso militante do que eu, tornara-se editor-chefe do Estadão e amigo próximo de Julio Neto. Por seu intermédio, com a ajuda de Roberto Gusmão, ambos amigos da vida inteira, passei a participar, vez por outra, dos drinques que serviam como pretexto para as conversas no bar do hotel grudado ao jornal no centro de São Paulo.

O liberalismo de Julio Neto, revivendo o de seus maiores, já não me assustava. Incorporara-o à minha visão social-democrática para os temas políticos e de direitos humanos. Não sei até que ponto minha visão social(ista), quanto aos limites que a sociedade deve impor ao laissez-faire, foi compartilhada por Julio Neto. Com Ruy, de quem com o tempo me tornei mais próximo, por certo coincidimos mais nos caminhos social-democratas.

Quanto ao Julio, figura reta, quase ascética, mais difícil de perscrutar, não saberia dizer. Mas, se além de o termos na memória o tivéssemos na convivência, uma coisa é certa: sua voz não calaria ao ver governo e Estado amarrados a interesses privatistas e partidários.

Quanta falta faz um homem de dignidade!

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