Um governador com jeito de prefeito

Um governador com jeito de prefeito

Alckmin cultiva aliados com rituais políticos à moda antiga

Ricardo Chapola, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h04

O resultado da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes que levou Geraldo Alckmin ao seu quarto mandato como governador representou a consagração do estilo de fazer política à moda antiga. Sem deixar de lado hábitos que vinham desde os tempos da prefeitura de Pindamonhangaba, que assumiu em 1976, o tucano teve em 2014 a segunda maior votação que um candidato ao Executivo paulista conseguiu desde a redemocratização. Teve 57,3% dos votos válidos - em 2006, José Serra conseguiu 57,9%.

Nos quatro anos do mandato que termina, Alckmin visitou os 645 municípios paulistas e lhes repassou cerca de R$ 6 bilhões via convênios, por meio dos quais o Estado participa da execução de obras no interior. Na gestão passada (2007-2010), R$ 4,2 bilhões saíram dos cofres estaduais para os prefeitos.

Para o presidente do PMDB paulista, deputado estadual Baleia Rossi, essas benesses às prefeituras são um trunfo para obter apoio político nos municípios. "Alckmin faz um enxoval de benesses, um pacote, e isso é uma ação muito forte do governo", disse o dirigente, cujo partido lançou Paulo Skaf ao Bandeirantes, mas viu prefeitos correligionários apoiarem o tucano. "Isso é a presença do governo em cada município, influenciando cada liderança política."

Apesar de problemas como a crise hídrica e as denúncias de cartel no setor metroferroviário, Alckmin só não foi o mais votado em um município, Hortolândia, um resistente reduto do PT a 110 quilômetros da capital. Lá, o candidato petista, Alexandre Padilha, obteve 38,6% dos votos e Alckmin, 34,88%. A folga do PT na cidade, sob sua gestão desde 2005, era maior em 2010, quando o tucano também foi derrotado pelo então candidato do partido, Aloizio Mercadante. Na época, o petista teve 57,93% dos votos, ante 29,45% de Alckmin.

A vantagem do PT em Hortolândia caiu de 2010 para cá, ao mesmo tempo em que o governo estadual começou a repassar mais dinheiro à prefeitura da cidade. O Estado destinou R$ 7,9 milhões ao município entre 2007 e 2010. No governo Alckmin, o repasse aumentou para R$ 9,1 milhões. Em 2014, o governador venceu nos outros 49 municípios onde havia ficado atrás do PT na disputa de 2010.

Cartilha. Considerado workaholic pelos aliados, Alckmin visita as cidades em qualquer dia da semana, sobretudo em fins de semana. Como fez em 25 de agosto de 2013, um domingo. Às 8h, o governador participou de uma cerimônia de entrega de 101 casas em Borá, a menor cidade do Brasil, a 486 km da capital. Em visitas como essa, Alckmin segue a cartilha do político interiorano: toma café com prefeitos na padaria, faz caminhadas, distribui cumprimentos, dá entrevistas a rádios locais e tira fotos com os eleitores.

A boa relação de Alckmin com a maioria dos prefeitos do Estado começou a ser construída antes mesmo de ele assumir o governo estadual, em 2001. Desde que era presidente do PSDB paulista, entre 1991 e 1994, o tucano fazia uma incansável via sacra pelos municípios para fundar sedes locais do partido. Ia com o próprio carro, acompanhado por um assessor de imprensa. Pessoas próximas dele atribuem a esse esforço a indicação para ser vice do ex-governador Mário Covas nas eleições estaduais de 1994.

Alckmin também montou uma equipe com nomes de confiança, responsável pelas articulações políticas. Compete a Edson Aparecido, ex-chefe da Casa Civil, e a Rubens Cury, assessor técnico da pasta, fazer a ponte do governador com partidos e prefeitos. No fim de setembro, por exemplo, os dois fecharam o apoio de 69 prefeitos do PMDB à candidatura tucana. Já o presidente do PSDB paulista, deputado Duarte Nogueira, ficou incumbido de reorganizar a sigla e amarrar a base em torno da candidatura de Alckmin. "O trunfo foi reencontrar a unidade partidária. Todo mundo remando para o mesmo lado."

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