Um ex-procurador americano levado ao Brasil pela Lava Jato

A investigação contra a corrupção e a cooperação dos EUA com os colegas brasileiros ajudaram na decisão de Eric Snyder de se mudar para São Paulo em 2016

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2019 | 05h00

WASHINGTON - Quando viu a foto do 225.º aniversário da procuradoria federal dos Estados Unidos, em um jantar de gala no Plaza Hotel, em Nova York, Eric Snyder pensou, em meio às centenas de ex-procuradores vestindo black tie ao seu redor, que em breve precisaria tomar uma decisão. Ao deixar o serviço público, seria ele mais um dos muitos ex-procuradores americanos a advogar no país? A conta foi simples: “Em vez disso, eu decidi ser o único ex-procurador dos Estados Unidos trabalhando no Brasil com casos de colarinho branco”. A Lava Jato e a cooperação dos EUA com os procuradores brasileiros ajudaram na decisão do americano, que convenceu a mulher, que nunca tinha pisado na América Latina, de se mudar para a Vila Nova Conceição, na zona sul de São Paulo, com as duas filhas.

Em março de 2016, Snyder preparou as malas para assumir o braço de colarinho branco do Jones Day, um dos maiores escritórios de advocacia do mundo, no Brasil. Na bagagem, levou a experiência na investigação e acusação de casos de propina e corrupção no Afeganistão, Venezuela e processar 50 líderes das FARC por organização terrorista.

No mesmo mês, os executivos da Odebrecht começaram a negociar um acordo de delação premiada com os investigadores do Brasil. Até aquele momento, nenhum dos lados sabia, mas a empresa acabaria admitindo o pagamento de propina em acordo dividido por Brasil, Estados Unidos e Suíça. O acordo da Odebrecht não foi o primeiro a envolver os americanos – e nem o último -, mas deu a dimensão de que empresas brasileiras, no foco do escândalo de corrupção, estavam expostas à investigação internacional.

Snyder trabalha nos casos em que as empresas do Brasil precisam lidar com as investigações nos EUA e por isso é advogado de quase 20 executivos da Odebrecht e do gestor e analista de investimentos Marcos Elias, preso em Nova York. A rotina de reuniões no Departamento de Justiça faz com que ele voe ao menos uma vez por mês para escritório do Jones Day em Washington, de frente para o Capitólio e com prédios assinados por arquitetos que fizeram o Empire State, em Nova York, e o Centro Georges Pompidou, em Paris. Por vezes, Snyder chega ao trabalho dirigindo um Saab de 2002, que não vende – mas oferece aos advogados com quem trabalha – por ter usado para cruzar o país com o pai, em 2004.

Em 2017, quando soube que o criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, tinha levado convidados a Portugal para comemorar com luxo seus 60 anos, Snyder decidiu que merecia o mesmo para os seus 50 anos. Mas a festa do americano não teve estruturas de palco montadas no quintal para bandas ou garços circulando, como as tradicionais celebrações de fim de ano de Kakay em Brasília. E nem caberia um palco no quintal de sua casa no bairro histórico de Georgetown, em Washington.

O luxo da festa ficou por conta da caneca de cerveja – com o nome do advogado – e do churrasco, encabeçado por um advogado gaúcho que trabalha com Snyder no escritório de Washington. “Além de bom churrasqueiro, nas horas vagas ele é advogado”, dizia enquanto recebia os ex-colegas de procuradoria, integrantes do Departamento de Justiça e advogados, além de Ali, o taxista iraniano que costuma dirigir o americano para o aeroporto.

A aproximação com o Brasil não surgiu com a Lava Jato. Antes, ele já havia assumido casos de brasileiros como o ex-prefeito Paulo Maluf. “O Eric tem uma visão pragmática do direito e consegue entender as diferenças do sistema brasileiro e americano. A experiência de procurador facilita isso”, diz o criminalista Pierpaolo Bottini, que já dividiu casos com Snyder. Foi assim que Bottini, que é professor da Faculdade de Direito da USP, levou Snyder para dar uma aula, em inglês, aos alunos do 1.º ano do Largo São Franciso. A conversa, com perguntas sobre o funcionamento da pena de morte nos EUA, se estendeu à noite por mais de duas horas depois da aula.

Mas há diferenças culturais no relacionamento com os advogados brasileiros. Nos EUA, a saída de um procurador para o setor privado é dada como certa e não é definitiva. É o que os americanos chamam de “porta-giratória”. No Brasil, há poucos casos como esse – e um, recente, mal sucedido, protagonizado por Marcello Miller, que fez parte do time de Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República (PGR) e acabou envolvido no imbróglio que levou à rescisão do acordo de delação dos irmãos Batista, da JBS.

“No Brasil, ou você é um procurador ou o que os criminalistas brasileiros chamam de 'advogado de verdade'”, diz Snyder, sugerindo uma desconfiança inicial dos brasileiros com um ex-procurador americano. Quando chega na prisão para visitar algum cliente, cumprimenta os conhecidos na fila para entrar - advogados, defensores público, intérpretes. E fala “estou desse lado agora, cara”, contando que deixou o serviço público.  O trabalho agora, define ele, é decidir se o melhor é cooperar com as autoridades americanas ou brigar na Justiça dos Estados Unidos. “Eu não sou sempre a favor de fazer acordo, mas sou a favor de fazer quando isso é melhor para o interesse dos meus clientes.” Mas a indignação com os brasileiros é uma única: a valorização do café em cápsulas no País. Fã de café, o americano não entende como os brasileiros preferem as cápsulas ao café nacional.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.