Um escândalo político revelado por uma imprensa investigativa

Para especialista, o presidente americano Richard Nixon renunciou graças ao trabalho da imprensa

Fernanda Simas, estadão.com.br

17 Junho 2012 | 11h46

O caso Watergate, que levou à renúncia do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon em 1974, completa 40 anos e retoma um debate antigo: a relação entre imprensa e política. O escândalo teve início em 1972, quando Nixon concorria à reeleição, pelo Partido Republicano.

O que parecia ser apenas o arrombamento do escritório do Partido Democrata, localizado no edifício do hotel Watergate, em Washington, se tornaria o pivô de um dos maiores escândalos políticos dos EUA. E a imprensa, a partir de um trabalho investigativo, foi responsável por escancarar o fato.

O repórter Bob Woodward, do jornal Washington Post, ficou sabendo do arrombamento por um porteiro do edifício, mas um agente do FBI o procurou e contou sobre uma investigação que vinha fazendo acerca de irregularidades na campanha de Nixon. Foi essa a fonte que revelou o envolvimento do presidente com o arrombamento, além de outras práticas de espionagem cometidas contra o Partido Democrata.

Sistema poliárquico

Para entender a importância da imprensa no caso, é preciso entender um pouco do cenário político norte-americano. O sistema político é poliárquico, ou seja, um partido pode controlar a esfera federal, executiva, mas não necessariamente a legislativa, o Congresso. Dessa forma, não há um grande grupo dominando todo o poder político a todo tempo, mas sim uma disputa entre eles e em diferentes níveis políticos.

O professor do curso de Relações Internacionais da Unifesp Flávio Rocha explica que, no início da década de 1970, o governo Nixon sofria um desgaste, levando o Congresso a adotar uma postura mais crítica. "O [caso] Watergate expôs as idiossincrasias do Nixon e de como se gerenciar a burocracia. O Nixon, por exemplo, não conseguia mais controlar o FBI", afirma.

E a partir daqui, o trabalho da imprensa já pode ser considerado essencial para o desenrolar do caso. "O contexto histórico era bem diferente do que é hoje. A imprensa, principalmente aquela liberal ou chamada ‘de esquerda’, investigava e entrava em confronto com o poder. Ela tinha o papel de investigar e denunciar o que não funcionava e colocar em cheque o governo", explica Rocha.

'Graças ao trabalho da imprensa'

Opinião semelhante tem o diretor do Instituto Internacional de Ciências Sociais e doutor em Comunicação, Carlos Alberto di Franco. "A queda do presidente dos EUA é algo fortíssimo e ele cai graças a um trabalho da imprensa". Com a publicação dos bastidores políticos, a opinião pública se volta contra Nixon, que, em 1974, deixa o cargo, sendo o primeiro presidente norte-americano a renunciar. "O caso Watergate é um exemplo bastante simbólico da importância de uma imprensa independente, uma imprensa investigativa séria", ressalta Di Franco.

Todo o escândalo veio à tona a partir de uma fonte, por muito tempo mantida em sigilo, e o mundo político costuma questionar isso por achar que a informação perde credibilidade. Mas, Di Franco rebate essa visão e argumenta que "a credibilidade está relacionada com a força do veículo de comunicação".

Situação atual

Hoje em dia, tanto nos EUA como no Brasil, por exemplo, os escândalos políticos continuam sendo divulgados, mas de uma forma diferente. "Houve um recuo da grande imprensa. No governo Bush, por exemplo, com relação à guerra, ela [imprensa] praticamente caminhava nos espaços permitidos. É a anticobertura", diz Di Franco.

"Hoje a imprensa é uma contadora de interesses. As pessoas leem as notícias e questionam ‘qual é o interesse desse grupo em veicular essa informação?’, hoje há uma visão mais crítica com relação à imprensa", afirma Rocha. Atualmente é possível ler sobre bastidores políticos inclusive a partir da divulgação de documentos secretos de diversos países pelo site WikiLeaks. Mas será que isso pode ser comparado ao que ocorreu na divulgação do escândalo Watergate?

O professor Flávio Rocha explica que o site expõe como alguns bastidores políticos funcionam, mas coisas já previstas pela população de uma forma geral. "Aparece algo dizendo que os EUA estão analisando a disputa eleitoral brasileira. Isso nós já imaginávamos, não tem nada realmente secreto, que vá abalar as relações de poder. O Watergate foi diferente. Ninguém tinha conhecimento daquilo que estava sendo divulgado".

"No Brasil, o caso Watergate deve nos servir de angulação. Estamos vivendo um momento de separação entre o mundo político, que esconde e abafa, e a sociedade, que quer transparência. O [caso] Watergate mostra a relevância de uma imprensa trabalhando pela transparência", ressalta Carlos Alberto di Franco.

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