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Um diário para contar o ´governo´ de Lu Alckmin

A três anos de deixar o governo, Maria Lúcia Alckmin prepara o lançamento de seu livro de memórias como primeira-dama do Estado de São Paulo. Mas que não se esperem passagens instigantes dos bastidores do Palácio dos Bandeirantes nem relatos de suntuosas recepções, jantares e festas aos quais costuma ir ao lado do governador Geraldo Alckmin. "Serão as histórias que colho nas visitas à periferia da cidade e aos municípios carentes", adianta ela ao Estado. O livro vem sendo construído em forma de diários, na caligrafia grande e redonda de Maria Lúcia. Após cada visita a comunidades carentes, ela escreve a lápis - "para ficar caprichado, sem rasuras" -, em seu gabinete, as histórias que julga mais tocantes. O fio condutor do diário e, conseqüentemente, do livro, é o programa de padarias artesanais, já presente em 4.033 comunidades carentes do interior e da capital. "Estou completamente envolvida nisso", conta Maria Lúcia. Tão envolvida que, no Natal, ganhou um kit padaria do pessoal do seu gabinete. "Aonde eu vou, levo padaria." A primeira-dama visita periodicamente as entidades, tanto as que já receberam as padarias como as que estão por receber. E vai ouvindo as histórias que, não raro, deixam a emotiva Maria Lúcia com os lágrimas nos olhos. Como a de um senhor do interior, viúvo há dois anos, que aprendeu a fazer pães e hoje sustenta os três filhos pequenos com o dinheiro das vendas. "No Jardim Ângela, a líder comunitária organizou um bazar e vendeu as coisas bem baratinho. Depois, envolveu a comunidade e construíram a padaria", conta ela, adepta da tese de que "não há solução de gabinete". "São três pessoas trabalhando, que fazem 2.800 pães que são distribuídos lá dentro da comunidade." Segundo ela, uma padaria vizinha permitiu que os "padeiros comunitários" fossem até lá usar o forno industrial próprio para o pão francês. "Para o dono dessa padaria não é competição, porque essas pessoas não teriam o dinheiro para comprar o pão", ressalta. "Mas, a partir do momento em que os moradores tiverem uma vida melhor, eles vão conseguir, de repente, trabalhar e comprar na padaria. Vai melhorar toda a economia da região." BerçoA vocação solidária de Maria Lúcia veio da mãe, Renata, que morreu há sete anos. "Sou de uma família grande (a mãe teve 11 filhos e adotou mais um), nunca me faltou carinho e minha mãe sempre encontrou tempo para ajudar os outros", lembra. "É lógico que eu nunca ia imaginar que seria presidente de um fundo social de um Estado inteiro. Mas é um trabalho que não estou fazendo sozinha: é o governo com a sociedade civil. É um trabalho de união, de todo mundo acreditando." Renata era uma mulher "boa e alegre", na simples definição da filha. E o que ela conta da mãe parece perfeitamente aplicável a ela mesma. "Nunca vi uma pessoa tão positiva. Aprendi com ela", admite. "Num dia de chuva, ela saía com a gente e, de repente, dizia: ´Olha está tudo verdinho, que lindo!´ Aprendi isso, sempre vejo uma coisa bonita. Mesmo na periferia." Maria Lúcia passou da caridade que praticava ao lado da mãe nos tempos de menina à solidariedade em larga escala há nove anos, quando o hoje governador Alckmin se tornou vice-governador, na gestão Mário Covas. Naquela época, ela trabalhava como voluntária no Fundo Social. "Quando o Geraldo foi candidato a prefeito (em 2000), comecei a ir à periferia. Foi quando conheci as outras líderes comunitárias, mulheres maravilhosas. É com elas que tenho aprendido a desenvolver meu trabalho", explica. "Naquela época, eu ouvia muito das pessoas que elas tinham fome, que não tinham dinheiro para comprar pão." Durante a campanha, conheceu quase toda a periferia. Mais tarde, com Alckmin já à frente do Estado, percorreu todo o interior. Nas áreas carentes, suas visitas são famosas - sempre sem cerimônia ao pôr o salto na lama e não perder a pose de Jacqueline Kennedy. "Ela sobe barranco de salto alto", espanta-se Cleuza Ramos, líder comunitária do bairro do Jaraguá. "Eu falo para as mulheres daqui da periferia que elas são desmazeladas, que têm de ver o exemplo da dona Lu." Na cidade, fez amizades com as líderes comunitárias. No interior, com as primeiras-damas municipais. "Somos amigas", define. De volta ao Bandeirantes, após as visitas, leva pessoalmente aos secretários os pedidos das comunidades. "Quero contar no livro minha experiência, o que aprendi com as líderes comunitárias que conheci", diz. "O caminho para finalizar o livro é longo, continuo anotando." MultiplicaçãoO programa das padarias artesanais é levado às regiões carentes do Estado desde 2001 graças a parceiras do Fundo Social de Solidariedade, do qual a primeira-dama é presidente, com a sociedade civil. São empresários - que chegam a doar mil kits, como fez o Banco Safra - e pessoas que doam um. Cada kit padaria tem forno, batedeira, liquidificador, balança, assadeiras e botijão de gás, e custa em média R$ 700. "Nenhum dinheiro passa pelo Fundo Social", ressalta Maria Lúcia. "A pessoa ou empresa doa o kit, que é levado para o depósito do fundo e, depois, doado às entidades cadastradas. Assim, não há burocracia, tudo anda mais rápido." A comunidade que recebe o kit envia para o fundo dois representantes multiplicadores, que aprendem a fazer dez tipos de pães caseiros. Além disso, são repassadas noções de higiene e cidadania. A bandeira da primeira-dama é a solidariedade educativa, o mais longe possível do assistencialismo. "Não é só fazer pão", explica Maria Lúcia. "Como você vai capacitar uma pessoa para o trabalho sem ensinar noções de cidadania, de higiene?" A nova meta do Fundo Social é levar os kits a 6 mil escolas. Além disso, o Sebrae dará um curso de capacitação, em todo o Estado, para que as padarias artesanais se tornem microempresas ou cooperativas. O projeto-piloto está em 22 entidades da zona leste. "Já estão vendendo para supermercados", comemora a primeira-dama.

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