Dida Sampaio/Estadão
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Eliane Cantanhêde
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Um dia de vexames

Até quando a presidente Dilma Rousseff cede e estende a mão, o PMDB não se comove e deixa a presidente com a mão abanando e à mercê de um "exército" cada vez mais dividido e incapaz de garantir suas trincheiras: a CUT, o MST e aliados, que levaram só 41 mil pessoas às ruas de São Paulo em 13 de março, segundo o Datafolha, prometeram levar 10 mil ontem e tudo o que conseguiram foram meros 260.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2015 | 02h04

Enquanto Dilma se digladiava no Planalto com o vice Michel Temer e o ex-quase-futuro ministro da articulação política Eliseu Padilha, manifestantes trocavam pauladas e cacetadas com a polícia na frente do Congresso, sob ataque de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Os atos de São Paulo, Brasília e outras capitais, fracassados, tinham duas motivações: condenar a terceirização de trabalhadores e defender Dilma. Ambas dividem as centrais.

Dilma fez uma pausa para pensar na Semana Santa sobre como recuperar o controle da situação e sobre as propostas do ex-chefe e eterno mentor Lula, que há tempos insiste em tirar Aloizio Mercadante da Casa Civil e Pepe Vargas da Secretaria de Relações Institucionais, responsável pela articulação política com um Congresso em pé de guerra.

Já na segunda-feira, Dilma reuniu a coordenação política ampliada (com PMDB, PSB e PC do B, não só o PT), marcou encontro com líderes partidários na terça e soprou a ouvidos atentos que poria o PMDB na articulação política.

Jogar Mercadante ao mar seria demais, Dilma não chega (ainda) a tanto. Mas Pepe Vargas, coitado, já devia ter providenciado a boia salva-vidas desde o início, não só porque o cargo ejeta um político atrás do outro, mas também porque ele não tem força política para missão tão complexa.

Com a troca, portanto, Dilma queria resolver um problema e agradar tanto a Lula quanto ao indomável PMDB. Entregou os anéis (Pepe Vargas), para tentar manter os dedos (Mercadante).

Ela, porém, errou na forma, como sempre. Toda a manobra foi parar na imprensa e na internet antes de duas providências elementares na política e na vida: avisar os interessados diretos. Pepe Vargas ficou sabendo pelos jornalistas, o que é motivo para abatimento e revolta. E a cúpula do PMDB reclamou que não sabia sobre o cargo nem sobre o escolhido.

Vamos a ele. O deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS) foi ministro dos Transportes no governo Fernando Henrique Cardoso e vivia sendo chamado ao Planalto para discutir rumos e avaliar as possibilidades de vitória ou derrota em grandes votações no Congresso. Era um aliado de ponta dos tucanos, vivia apanhando dos petistas.

Mudou de lado radicalmente, como se vê, mas manteve seu grande trunfo: o de conhecer bem os meandros do Congresso e ter uma espécie de planilha mágica que antecipa resultados em decisões fundamentais em plenário. Dilma anda precisando muito dessa expertise, depois das suas sucessivas derrotas, mas não foi só por isso que ela se esforçou para atrair Padilha para o centro do poder. Foi também para tentar, inutilmente, reduzir o grau de beligerância dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros.

Foram os próprios Cunha e Renan os primeiros a desdenhar do convite, até Padilha argumentar "questões pessoais" e dizer que prefere ficar onde está, na insípida Secretaria de Aviação Civil. Resultado: a ação de Dilma foi um desastre. O PMDB humilhou Dilma e ela tenta driblar o vexame pendurando a articulação política na Vice-Presidência.

Agora, pensemos juntos: que político prefere uma secretaria técnica à nobre articulação política, com gabinete no Planalto, a passos da mesa presidencial? Só um, como Padilha, que seja de um partido em pé de guerra com o(a) presidente da República.

Logo, a guerra continua. Nos bastidores do poder e nas ruas, uma alimentando diretamente a outra. Ah! E o domingo, 12 de abril, vem aí!

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