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Um ataque infame e uma herança perversa

Mito da ‘democracia racial’, como todo mito, é construção sem base na realidade

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2021 | 03h00

A final da copa europeia de seleções, entre Itália e Inglaterra, foi uma partida eletrizante, cuja transmissão bateu recordes de audiência no mundo inteiro. Será lembrada no futuro não apenas pelo caráter épico, mas também por um episódio infame: os ataques racistas aos três jogadores britânicos que não converteram suas cobranças na decisão por pênaltis.

Os episódios de racismo se tornaram tristemente comuns no futebol europeu. Em protesto contra eles, jogadores de quase todas as seleções se ajoelharam antes das partidas da Euro. As ofensas de alguns torcedores ingleses, nas redes sociais, contra os craques Saka, Sancho e Rashford foram – não poderia ser diferente – condenadas com veemência pelo primeiro-ministro Boris Johnson, pelo prefeito de Londres, Sadiq Khan, e pelo príncipe William. Crimes que são, devem ser investigadas e punidas.

Os brasileiros costumam dizer que episódios assim não ocorrem em nosso país. De Leônidas da Silva a Neymar, passando por Didi, Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo, alguns dos maiores craques do nosso futebol são negros e se tornaram ídolos nacionais. Durante muito tempo o mito da “democracia racial” foi forte entre nós. Como todo mito, é uma construção sem base na realidade. Um exemplo na mesma arena, a esportiva: os jogadores Fernandinho e Gabriel Jesus foram igualmente vítimas de racismo nas redes sociais quando o Brasil foi eliminado pela Bélgica na última Copa do Mundo.

“O racismo permeia todas as camadas e toda a trajetória da sociedade brasileira”, diz o escritor Laurentino Gomes, ex-editor do Estadão e personagem do minipodcast da semana. Ele acaba de lançar o segundo volume da trilogia Escravidão. Laurentino diz que, em sua pesquisa para a obra, formou a convicção de que abordava o tema mais relevante de nossa história.

A libertação dos escravos não foi o ato de piedade de uma princesa, mas resultado de um dos primeiros levantes da sociedade civil brasileira. Este jornal – na época chamado de A Província de S. Paulo – foi um dos defensores do movimento. Pouco antes da abolição, a população negra já predominava no Brasil, e um contingente grande já conquistara a alforria. 

“O maior problema de nossa sociedade é a desigualdade, e a desigualdade é, em parte, herança da escravidão”, diz Laurentino. Ele se refere ao fato de que, depois da Lei Áurea, as autoridades brasileiras deixaram a enorme população de ex-escravos completamente desamparada. Sem saúde pública, sem condições mínimas de saneamento – e sem educação decente que possibilitasse acesso aos melhores postos do mercado de trabalho.

O livro mostra também a enorme riqueza dessa África que cruzou o oceano e aqui viveu em condições sub-humanas. Ela se expressa, entre outras coisas, na cultura, na religião e nas técnicas agrícolas. Mais de um século se passou desde a abolição, houve avanços inegáveis – mas o fato é que grande parte da população afrodescendente ainda vive em condições precárias e não tem acesso a uma educação de qualidade. Na era do conhecimento, em que diversidade é um valor, é uma perda inestimável não apenas humanitária, mas também econômica.

O Brasil, como defende Laurentino, precisa se aprofundar no estudo da escravidão e atacar veementemente essa herança perversa. É bom que existam heróis negros no panteão do País. Isso, no entanto, não nos exime do acerto urgente que precisamos fazer com nosso passado.

PARA SABER MAIS

Mini-podcast com Laurentino Gomes

Link para o segundo volume da trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes

Reportagem do Estadão sobre o racismo no jogo Itália x Inglaterra

A atuação do Estadão na campanha abolicionista


ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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