Um ano após, famílias não superam a perda

Acidente ainda muda a rotina dos familiares das vítimas

FELIPE GRANDIN, JORNAL DA TARDE,

12 Janeiro 2008 | 02h54

Às 15h do dia 12 de janeiro de 2007, o aposentado Salvador de Azevedo, de 80 anos, entrou na estação de trem Santo Amaro à procura da mulher. Mas ela nunca chegou. Abigail Rossi de Azevedo, de 75 anos, tinha acabado de ser soterrada em uma cratera de 5 mil m² nas obras da futura Estação Pinheiros. Ela estava indo a pé ao médico quando se tornou uma das sete vítimas fatais no maior desastre da história do metrô de São Paulo.  Veja também:Tragédia do Metrô completa um ano sem punição de responsáveisGafes e trapalhadas marcaram a cobertura da tragédiaEspecial cratera do metrô Um ano depois, Salvador Azevedo ainda parece esperar o momento em que a encontrará. "É o primeiro ano que passo sem ela. Foram 50 anos juntos", diz com a voz embargada. "Sentimos muito a falta dela, mas tentamos lembrar sempre as coisas boas", completa Sílvio Antônio Azevedo, de 46 anos, filho do casal.  Nem todos conseguem transformar a dor em alegria. As festas de fim de ano não foram comemoradas pelos parentes do motorista Francisco Sabino Torres, de 48 anos. "Não teve Natal nem ano-novo, não tínhamos nada para comemorar", diz a viúva Maria Sinhazinha Torres, de 40 anos. O motorista trabalhava na obra do Metrô. Chegou a sair do caminhão que dirigia ao ouvir um barulho, mas voltou para pegar a carta de motorista e foi soterrado. Hoje, Maria Sinhazinha vive da pensão do marido e mora com os três filhos: Danilo, de 15 anos, Adilson, de 16, e Kelly, de 19.  O tempo também não foi suficiente para aliviar a dor da família de Wescley Adriano da Silva, de 22 anos, soterrado dentro da van que passava pela Rua Capri na hora do acidente. Com apenas dez meses, o filho de Wescley, Cauã, não conheceu o pai. "Sei que ele vai sentir falta no futuro", afirma a mãe, Thaís Ferreira Gomes, de 20 anos.  Procurar explicação e consolo para a tragédia é o que faz a todo o tempo Wagner Marmit, viúvo de Valéria Alves Marmit, de 37 anos, passageira da van soterrada. Os filhos gêmeos Guilherme e Edgard, de 11 anos, se emocionam sempre que mencionam a mãe. "Eles não ficam chorando pelos cantos, mas você não pode tocar no nome dela", afirma o pai. Valéria também deixou a filha Juliana, de 18 anos. Márcio Rodrigues Alambert, de 31 anos, era funcionário público. Deixou a mulher e a filha, de 3 anos, que pediram para não ser identificadas. "Se fosse uma morte natural, tudo bem. Mas neste caso poderia ter sido evitada. Para mim, isso foi um crime.", afirma o pai dele, Celso Alambert, de 68 anos. As famílias de Cícero Augustinho da Silva e Reinaldo Aparecido Leite não foram encontradas.

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