Último não-índio deixa reserva

Fazendeiro de 82 anos decidiu sair de área em RR onde criou 16 filhos

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

O último não-índio que ainda resistia na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, capitulou. Na semana passada, o fazendeiro Adolfo Esbell, de 82 anos, conversou com o desembargador Jirair Megarian, encarregado de coordenar a retirada dos não-indígenas do território, e anunciou sua decisão de sair. No próximo domingo, o desembargador, que trabalha em Brasília, irá a Normandia, município onde fica a propriedade de Esbell, na fronteira com a Guiana, para um ato simbólico, no qual o fazendeiro lhe entregará a chave de sua velha casa - onde criou 16 filhos - e receberá em troca um documento confirmando a saída.Mais do que a desistência de Esbell, o encontro simbolizará a etapa final de uma disputa de 32 anos sobre o controle daquele território, uma área de 1,7 milhão de hectares, onde vivem cerca de 19 mil índios. A disputa acabou em abril, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a demarcação da área de forma contínua, sem espaço para não-indígenas.Com a saída de Esbell, fica inteiramente por conta dos índios a administração do território. Seu primeiro desafio será superar as diferenças. Eles estão divididos em cinco etnias, com diferentes graus de aculturamento. Os macuxis, que vivem nas vastas planícies da região, conhecidas como lavrados, são os mais integrados. Organizam-se em torno da criação de gado, em áreas de pequeno, médio e até grande porte. No extremo oposto estão os ingaricós, moradores isolados das montanhas, na região conhecida como Serra do Sol, de dificílimo acesso e pouca integração com outras culturas. No meio deles situam-se os uapixanas, taurepangs e patamonas.Os índios também se dividem por tendências políticas e religiosas. As divergências são tantas que já existem oito associações para representá-los.FEDERAÇÃOEstimulados pelo desembargador Megarian, eles deram dias atrás o primeiro passo para tentar superar as divergências, com a criação de uma federação, que abriga as associações. O presidente eleito saiu do Conselho Indigenista de Roraima (CIR), a organização mais influente e também a mais próxima da Igreja Católica.A primeira assembleia da federação está marcada para o dia 25. Um dos temas mais azedos será a definição sobre a ocupação das terras controladas pelos produtores de arroz, obrigados em abril a sair da área. Os índios ainda não sabem o que fazer com os arrozais.Também devem discutir formas de obter renda para seus projetos de desenvolvimento. De acordo com o presidente do CIR, o macuxi Dionito de Souza, a concessão de áreas para a exploração de minérios é uma alternativa."Vamos vigiar para evitar invasões", disse ele. "Mas também precisamos definir o futuro, analisar as propostas que estão sendo feitas, para a construção de um hidrelétrica, a exploração de minérios."Para o secretário de Assuntos Indígenas de Roraima, o também macuxi Jonas Marcolino, os índios deveriam discutir formas de melhorar a produção rural. "Há uma carência grande de produtos agrícolas no Estado, que aumentou com a paralisação das atividades dos arrozeiros", disse ele. "Os indígenas da Raposa Serra do Sol só produzem para sua subsistência."Na opinião de Marcolino, que se opôs a demarcação em área contínua, um dos principais problemas será o enfrentamento dos diferentes graus de integração das comunidades. "Os ingaricós vivem semi-isolados e são vítimas de doenças graves. Deveriam ser integrados, mas existem líderes indígenas e ONGs que defendem o isolamento."Os índios devem explorar a área coletivamente. Esse foi, aliás, o motivo que levou Esbell a desistir de vez de sua fazenda de 320 hectares.Por causa da idade, do fato de ter nascido ali e de um distante parentesco indígena, ele estudava com Megarian sua permanência em Normandia. Desistiu quando os índios deixaram claro que teria que se sujeitar à nova forma de organização.Ele irá para uma área do mesmo tamanho, cedida pelo Estado, no município de Bonfim. Segundo um de seus netos, Frank Gilliar, ele a mulher estão muito tristes. "Eu também ficaria, se tivesse que sair do lugar onde passei a vida inteira", disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.