TV pública ainda mantém vícios de emissora oficial

Entre os problemas não resolvidos, estão promoção de estatais e falta de regras para anúncios institucionais

Luciana Nunes Leal, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2008 | 00h00

Inaugurada em dezembro, com a promessa de autonomia em relação ao governo e isenção no tratamento de todos os assuntos, a TV Brasil, emissora pública criada por meio de uma medida provisória e agora em discussão no Congresso, ainda carrega vícios das televisões oficiais.Na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), nome oficial do canal, a autopromoção de instituições estatais e a falta de regras para os anúncios institucionais ainda são problemas não resolvidos. Entre os pontos positivos, estão programas sobre música e cinema, além de reportagens mais aprofundadas que as das emissoras comerciais, além de enfoque didático. Além disso, não falta espaço para a oposição se manifestar.O Mobilização Brasil, que vai ao ar de segunda a sábado, às 7h30, é o maior exemplo da confusão entre informação e propaganda. O espaço é pago pela Fundação Banco do Brasil e propõe mostrar "como a mobilização da comunidade resulta na solução de problemas sociais antigos".De fato, aponta ações bem-sucedidas que envolvem cooperativas e agricultura familiar, todas patrocinadas pela fundação. Além das atividades, no entanto, o programa dá destaque para representantes da patrocinadora, que comentam projetos financiados pelo banco.MANDIOCANa última quarta-feira, o tema era "a cadeia produtiva da mandioca", em Vitória da Conquista (BA) - administrada pelo PT - e arredores. No estúdio, um produtor rural e Emerson Pereira, representante da fundação, comentavam um projeto."A fundação está imbuída no processo de se alinhar aos programas do governo federal de combate à fome e do programa Fome Zero", disse Pereira. No início da entrevista, ele informou que, em 2003, "se repensou a atuação da Fundação Banco do Brasil". Foi o primeiro ano do governo Lula.A equipe do programa foi a Vitória da Conquista, onde ouviu, entre outros, o agricultor Juraci Silva Cordeiro. "Nunca antes na história tanta gente se envolveu na agricultura familiar", disse Juraci, usando um bordão repetido à exaustão pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e abordando tema muito caro ao presidente, a agricultura familiar.No dia seguinte, o tema do Mobilização era a apicultura no Vale do Jequitinhonha (MG). Dessa vez, foi entrevistado Jorge Luiz Bertoldi, do setor de Geração de Trabalho e Renda da fundação, além de dois funcionários do banco na cidade de Turmalina e apicultores beneficiados.DIVERSIFICAÇÃOAntes do programa sobre a mandioca, na quarta-feira, foi ao ar o semanal Universo Pesquisa, às 7 horas, patrocinado pela Universidade Regional de Blumenau (SC). Em um dos quadros, foi entrevistado o jornalista Aristheu Formiga, autor do livro Vende-se a Notícia, em que discute "a confusão entre notícia e publicidade". Boa parte da entrevista foi dedicada às críticas do autor a uma empresa privada.No noticiário da emissora, percebe-se o cuidado em dar espaço a representantes da oposição. Entre quarta e sexta, apareceram o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), e o líder do DEM na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA). Entre os governistas, foram o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), e os líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS).Na noite de quarta, o destaque foi para uma entrevista com a deputada petista Janete Pietá (SP), da Frente Parlamentar pela Defesa da Igualdade Racial. Já na quinta, um representante da Receita Federal deu informações sobre as novas regras de declaração do Imposto de Renda.DEBATESA diretora de jornalismo da TV Brasil, Helena Chagas, lembra que oposicionistas como o senador Heráclito Fortes (PI) e o deputado José Carlos Aleluia (BA), ambos do DEM, já participaram de debates na emissora. Ela conta que os programas jornalísticos terão cada vez menos reportagens de aparência oficial, como assinaturas de convênios. "Tive espaço na TV, não vou negar. E o entrevistador foi bastante equilibrado. Mas acredito que a TV Brasil não foi concebida como emissora pública, no sentido de não ter influência do governo nem do setor privado. É diferente das universidades públicas, que têm autonomia, elegem aqueles que vão comandar", ressalta Aleluia.A presidente da emissora, Tereza Cruvinel, rebate o comentário: "A TV busca pluralidade, isenção, equilíbrio e está imprimindo perfeitamente essa finalidade."Ainda na noite de quarta-feira, o jornal noturno exibiu reportagem sobre o fechamento de bibliotecas públicas municipais da cidade de São Paulo, cujo prefeito, Gilberto Kassab, é do DEM. Foi apresentado, ainda, um bem-sucedido projeto de leitura no bairro de Heliópolis, "enquanto a prefeitura decide fechar bibliotecas". Não houve espaço para resposta dos gestores municipais. Segundo Helena, a nota da prefeitura não chegou a tempo de entrar na edição de quarta-feira e foi divulgada no dia seguinte. FRASESJosé Carlos AleluiaDeputado (DEM-BA)"Tive espaço na TV, não vou negar. E o entrevistador foi bastante equilibrado. Mas acredito que a TV Brasil não foi concebida como emissora pública, no sentido de não ter influência do governo nem do setor privado. É diferente das universidades públicas, que têm autonomia"Juraci Silva CordeiroEntrevistado da TV"Nunca antes na história tanta gente se envolveu na agricultura familiar"

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