Reprodução / Youtube Presidência da República
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TV católica desautoriza padre que tratou de verba com Bolsonaro

TV Pai Eterno afirmou que o missionário redentorista Wellington Silva, que participou de videoconferência com o presidente, não estava representando a empresa de comunicação

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2020 | 09h18

BRASÍLIA - Uma das principais emissoras de inspiração católica no País, a TV Pai Eterno desautorizou o pedido de ajuda em forma de verbas publicitárias feito por um de seus padres-apresentadores ao presidente Jair Bolsonaro, acompanhado de uma oferta para apresentar notícias positivas sobre ações do governo. O episódio, revelado pelo Estadão, repercutiu mal na Igreja e agravou a divisão interna entre a ala conservadora, mais simpática ao presidente, e os considerados progressistas, críticos a Bolsonaro.

O missionário redentorista Welinton Silva apelou ao presidente citando que a TV Pai Eterno passa por "dificuldades" de arrecadação e que o segmento católico de comunicação como um todo tem ficado "esquecido". "A nossa realidade é muito difícil e desafiante, porque trabalhamos com pequenas doações, com baixa comercialização, e dentro dessa dificuldade estamos precisando mesmo de um apoio maior por parte do governo para que possamos continuar comunicando a boa notícia, levando ao conhecimento da população católica, ampla maioria desse País, aquilo de bom que o governo pode estar realizando e fazendo pelo nosso povo", disse presbítero. "Esse é um segmento que tem ficado esquecido, que é o segmento de comunicação católico. Precisamos ter mais atenção para que esses microfones não sejam desligados, para que essas câmeras não se fechem."

A TV Pai Eterno disse que o padre Welinton Silva, apresentador que participou em 21 de maio de videoconferência com Bolsonaro, havia recebido um convite pessoal do líder do governo na Câmara dos Deputados, major Vitor Hugo (PSL-GO). Por isso, a emissora considera que o encontro era "informal" entre o presidente, a Frente Parlamentar Católica e convidados da Igreja.

Em verdade, o encontro virtual era uma agenda pública oficial do presidente, transmitida pela Presidência da República, e o padre Welinton Silva disse representar a TV Pai Eterno. Além disso, parlamentares também o citaram como representante da TV.

"Na ocasião, a participação do Pe. Welinton se deu, unicamente, enquanto religioso e comunicador, já que é jornalista e, atualmente, faz parte também do quadro de colaboradores da TV. Mesmo que ele tenha referenciado sua participação como representativa, afirmamos que ele não estava representando a emissora. A TV Pai Eterno não recebeu convite e nem enviou nenhum representante com pauta específica para a videoconferência", disse a TV, em nota divulgada neste domingo, dia 7. "Percebemos que o Pe. Welinton fez uso de seu livre direito de expressão não representativa, mesmo tendo afirmado de forma diferente, para manifestar seu pensamento do modo que considerou apropriado."

No ar desde 2019, a TV Pai Eterno é ligada ao santuário do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), sendo a mais nova das geradoras de conteúdo católicas. O padre Welinton convidou Bolsonaro para visitar o local. A TV e o santuário são iniciativas dos missionários redentoristas, que também mantêm a TV Aparecida, e haviam manifestado "desconforto e discordância". A Comissão de Mídias Redentoristas afirmou que a oferta dos padres e leigos católicos a Bolsonaro era um "atentado à unidade da Igreja" e "falta de compromisso com o Evangelho".

"A TV Pai Eterno nunca fez e não faz barganhas", disse a emissora, em nota que repete as palavras usadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reproduzidas pelo veículo oficial do Vaticano. A emissora disse trabalhar em comunhão com a CNBB e a Signis Brasil, rede católica que congrega veículos de comunicação.

A CNBB se disse "indignada" com a conversa entre Bolsonaro, deputados de Frente Parlamentar Católica e representantes de emissoras, entre eles sacerdotes e leigos. A entidade dos bispos brasileiros, que não participou do encontro, afirmou que a Igreja não faz "barganha".

O Estadão apurou que as verbas estatais, de diversas esferas de governo, são uma importante fonte de receita para veículos de comunicação de cunho religioso, que recebem doações de fiéis e têm poucas inserções de propaganda comercial. Um exemplo é o da Rede Vida, uma das maiores emissoras comerciais de viés católico no Brasil. Segundo seu presidente, o empresário João Monteiro de Barros Neto, a publicidade federal caiu 85% no governo Bolsonaro. A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus agravou o desfalque no caixa.

Na reunião presidencial, também houve pedidos para liberar mais outorgas para rádios e TVs da rede católica, por parte do padre Reginaldo Manzotti, da Tv Evangelizar. Ele sugeriu que os veículos católicos poderiam "estar juntos" do presidente, no momento que que o governo sofre exposição "negativa" na imprensa.

Procurados pelo Estadão por mais de uma vez, a TV Pai Eterno e o padre Welinton Silva não responderam, tampouco o padre Reginaldo Manzotti. O líder do governo e a Presidência da República não retornaram os contatos da reportagem.

Investidores e passaporte

Na reunião, os católicos também levaram a Bolsonaro assuntos ligados a negócios, como o interesse de investidores estrangeiros no Brasil, e até uma questão de cunho pessoal. O padre Eduardo Dougherty, da Rede Século 21, pediu ajuda ao presidente e reclamou da demora na emissão de um passaporte pessoal, já que é norte-americano e vive no Brasil há 54 anos - 50 deles como sacerdote. No entanto, ele considera que não houve uma "troca de favores".

O padre manifestou ainda discordância sobre trâmites burocráticos do governo para aprovação de novas tecnologias. O jesuíta disse que não conseguiu acesso junto a autoridades da Agricultura para apresentar "investidores" e "tecnologias inovadoras" que poderiam ser aplicadas na preservação ambiental. "Toda a intenção se volta para geração de renda e de empregos à sociedade. Em nenhum momento padre Eduardo propõe troca de favores ao governo ou pede apoio em troca de verbas", disse a Século 21, em nota. "A respeito do passaporte, se trata de um problema que há anos complica sua vida e missão no Brasil, impossibilitando o mesmo de se tornar um cidadão brasileiro e caminhar junto ao povo com os mesmos direitos de qualquer cidadão."

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