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Tutela e intervencionismo

A proposta de governo do PT é um programa intervencionista, mas que é vendido por Fernando Haddad como um 'diálogo com a modernidade da base para o topo'

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2018 | 03h00

No roadshow que promoveu na função de dublê de coordenador de programa de governo e candidato a candidato real à Presidência pelo PT, Fernando Haddad usou sua conhecida ironia para dizer que a proposta de governo do partido promoveria um “choque de liberalismo”.

Trata-se, isso sim, de um libelo em favor do intervencionismo estatal, da tutela a instituições públicas e privadas e até a outros Poderes e da reedição da política econômica de Dilma Rousseff que mergulhou o País na recessão.

Haddad diz que falta regulação às concessões de comunicações, mas, quando se põe a detalhar sua proposta, revela a intenção de controle sobre o conteúdo da imprensa, ao falar em espaço para “representatividade étnica”, “liberdade de expressão para camadas vulneráveis” e “compromisso com a diversidade”, todos eles conceitos subjetivos o suficiente para abranger alta carga de ideologização e partidarização.

Da mesma maneira, quando fala em controle “social” do Judiciário e do Ministério Público, resta subjacente a intenção de tutela do Poder e da instituição que nos últimos anos foram escolhidos pelo PT como inimigos, que promoveriam uma suposta perseguição ao partido. 

A proposta petista de redução dos spreads bancários aumentando a tributação remete ao ápice da tese dilmista de baixar juros ou preço de tarifas na canetada. “Conceitualmente a proposta está errada porque usa um instrumento (tributo) para atingir um objetivo (reduzir o poder de mercado dos bancos) que não é atendido pelo instrumento. Tributo não é instrumento de elevação de competição”, diz o economista Samuel Pessôa.

O PT chegou ao poder em 2002 com um discurso, aí sim, pró-mercado, expresso na tal carta ao povo brasileiro. Colhido pelo mensalão e o petrolão e apeado do poder depois de 13 anos pelo impeachment de Dilma, o partido retroage às ideias econômicas pré-2002 – que, empregadas no governo dela, deram em desastre. 

Na política, mira as instituições com tutela para tentar atribuir a um complô o fato de seus principais líderes estarem presos ou denunciados. 

O resultado é um programa intervencionista, mas que é vendido por Haddad como um “diálogo com a modernidade da base para o topo”.

ENTREVISTA

Mauro Benevides Filho, economista do presidenciável Ciro Gomes (PDT)

‘As nossas propostas agora são consenso’

O economista Mauro Benevides Filho, coordenador do programa de governo de Ciro Gomes, responde a objeções do PT a propostas apresentadas pelo candidato pedetista ao Palácio do Planalto.

O que achou do programa de governo do PT, detalhado por Fernando Haddad? Ele criticou a proposta de reforma da Previdência de Ciro Gomes.

Acho engraçado que, aos poucos, nossas propostas, antes consideradas absurdas, vão virando consenso. Taxar dividendos e lucros agora é consenso. A mesma coisa com heranças. A capitalização como novo regime de Previdência não é consenso ainda, mas vai ser.

Haddad diz que ela, no curto prazo, aumenta o problema fiscal.

Não é preciso ser doutor em ciência atuarial para saber que o regime de repartição está falido. Acho engraçado que a imprensa se inibe de perguntar que conta é essa que mostra que a transição para o regime de capitalização é cara. Que conta é essa? Ninguém fez. Nós fizemos, e o Ciro vai mostrar no fim do mês, quando vai mostrar a proposta fechada de reforma da Previdência que defendemos.

Sem alianças e com as declarações polêmicas, Ciro pode perder lugar no segundo turno para o PT?

Não tem isso de falar demais. Ciro será o próximo presidente. Quem tem compromisso com rigor fiscal maior que ele? Quem resgatou a dívida mobiliária de seu Estado antecipadamente quando governou? Ciro é o único que tem dito como vai fazer, com números: quanto vai arrecadar com cada imposto, quanto e de onde vai cortar benefícios.

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