Tuma Júnior é obrigado a deixar Secretaria Nacional de Justiça

Delegado diz está apenas saindo 'de férias', mas Planalto espera que ele não volte ao cargo

Vera Rosa e Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

11 Maio 2010 | 18h14

O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, decidiu na madrugada de terça-feira, 11, afastar o delegado Romeu Tuma Júnior do comando da Secretaria Nacional de Justiça. Informalmente, em conversas mantidas na tarde de terça, o secretário disse que decidiu apenas "tirar férias" para se defender. O secretário deixa o cargo uma semana depois de o Estado revelar as ligações de Tuma Jr. com Li Kwok Kwen, um dos líderes da máfia chinesa conhecido como Paulo Li e que está preso. A PF tem indícios que transformam o secretário em suspeito de "tráfico de influência" e de prática de "crimes contra a administração pública".

 

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Depois de um relato minucioso da PF sobre todos os indícios acumulados contra Tuma Jr. e os assessores Paulo Mello e Luciano Barbosa, coletados ao longo de quatro operações - Persona (2007), Trovão (2008), Wein Jin (2009) e Linha Cruzada (2009) -, o Planalto abandonou politicamente o delegado.

 

Em uma série de reuniões na noite de segunda e madrugada de terça-feira, véspera do anúncio do seu afastamento, o governo combinou o script das "férias" com Tuma Jr. Apesar do discurso público de que não pode condenar ninguém a priori, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esperava que Tuma Jr. tomasse a iniciativa de deixar o cargo, o que não ocorreu. Pior: o secretário resistiu a sair, sob a alegação de que não cometeu nenhum crime.

 

A solução intermediária encontrada pelo Palácio do Planalto foi a da licença. O ministro Barreto convenceu Tuma Jr. de que, se nada ficar provado contra ele no inquérito da PF, a retomada de suas funções está assegurada. Na prática, porém, a expectativa do governo é que ele não volte ao cargo.

 

No diagnóstico do Planalto, a manutenção de Tuma Jr. - depois que a PF admitiu em nota oficial "diversos indícios" sobre o possível envolvimento do secretário com a máfia chinesa e até a tentativa de relaxar a apreensão de US$ 160 mil, no aeroporto de Cumbica -, poderia não apenas atingir o governo como respingar na campanha da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff.

 

O cuidado para negociar a saída do secretário foi político. Motivo: Tuma Jr. é filho do senador Romeu Tuma (SP), ex-superintendente da Polícia Federal e integrante do PTB, um partido que está dividido no apoio a Dilma e ao candidato do PSDB, José Serra. O governo fez de tudo para não melindrar o aliado.

 

Até mesmo a entrevista de Tuma Jr. ao programa "Brasil Urgente", de José Luiz Datena, no final da tarde de terça, foi combinada com auxiliares de Lula. O chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, foi um dos que passou o dia de ontem e a segunda-feira em reuniões. O ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, também foi consultado. A entrevista a Datena foi acertada previamente porque Tuma pediu ao governo um espaço para se defender. E achou que isso só seria possível num programa popular, sem questionamentos.

 

Para evitar a crise, Barreto tentou que a PF atestasse a inocência de Tuma Jr., mas não conseguiu. Ao contrário: a PF divulgou nota afirmando que só depende de autorização judicial para apurar a prática, "em tese, de crime contra a administração pública". O teor da nota da PF vem sendo discutido desde a semana passada com Barreto, em reuniões marcadas pela tensão. Mas só nesta terça chegou-se a um desfecho para a crise, quando o governo construiu o roteiro das "férias" de Tuma Jr.. O secretário alega que, no período da investigação, irá se defender.

 

A saída de Tuma começou a ser negociada na segunda-feira, 10, numa reunião que durou cerca de três horas - das 21h50 às 23h50. Tuma se reuniu com Barreto, no Ministério da Justiça, quando o Planalto já havia dado ao ministro a incumbência de negociar o afastamento do secretário. Depois, das 23h50 à 1h45, na madrugada de terça, Tuma reuniu-se com os assessores. Ao deixar o ministério, perto das 2h, o secretário já não garantiu que continuaria no cargo.

 

"Vamos trabalhar, tem muito ladrão para a gente prender", disse, caminhando pelos corredores do ministério. "Estou trabalhando, crime organizado não tem hora. Eles não descansam, a gente também não pode descansar. Estamos trabalhando", acrescentou.

 

Atualizada às 22h12

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