Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
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Tucanos projetam frente anti-Doria nas prévias do PSDB

Considerado favorito, governador paulista pode enfrentar união de potenciais adversários na disputa interna

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 11h41

Após a cúpula do PSDB definir as regras das prévias que escolherão o candidato do partido ao Palácio do Planalto no ano que vem, tucanos avaliam que o governador João Doria leva vantagem na largada devido à força do partido em São Paulo, maior colégio eleitoral do País, mas enfrenta forte resistência nas bancadas da sigla no Congresso. Rivais do governador paulista já falam numa possível aliança entre seus adversários na reta final.

Em caráter reservado, aliados do governador Eduardo Leite (RS), do senador Tasso Jereissati (CE) e do ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, admitem que eles estão mais afinados e duvidam da força eleitoral do governador paulista, que recebeu 3% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha sobre 2022. 

A leitura é que Doria carrega uma forte rejeição em seu próprio Estado e também enfrenta uma ala silenciosa do PSDB que prega o partido sem candidato próprio em 2022, o que aumentaria os recursos do Fundo Eleitoral para as campanhas legislativas e estaduais e facilitaria a construção de uma aliança de centro com a participação da legenda, mas não necessariamente na cabeça de chapa. 

Já os tucanos paulistas apostam na vacina Coronovac como o “Plano Real” de Doria (uma referência ao principal “cabo eleitoral” na eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência) e acreditam que ele vai subir naturalmente nas próximas pesquisas, no papel de “anti-Bolsonaro” do centro. Os números do PSDB também favorecem o governador de São Paulo. A legenda comanda 303 prefeituras em São Paulo , 62 no Rio Grande do Sul e apenas 10 no Ceará.  

No PSDB gaúcho, a leitura é que Leite representa o “novo”, não tem a mesma rejeição de Doria e está mais alinhado com Tasso, a bancada e a máquina partidária que o chefe do Executivo paulista. O governador do Rio Grande do Sul não pretende disputar a reeleição, como afirmou recentemente ao Estadão. Seja qual for o resultado das prévias, ele sairá ganhando, dizem seus interlocutores.

Largada. Os pré-presidenciáveis vão começar em julho a visitar os Estados nos finais de semana para encontros com a militância.  A eleição interna está marcada para 21 de novembro, mas os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) e o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio já reservaram suas agendas. 

O senador Tasso Jereissati (CE) disse ao Estadão que não pretende participar de eventos presenciais por enquanto: “Pode ser que eu chegue atrasado, mas tem tempo. Talvez em agosto ou setembro eu comece a fazer isso. Alguns contatos estou fazendo por telefone com um colega ou outro de partido que liga, mas nada com cara de campanha”. 

Doria, por sua vez, agendou sua primeira viagem para o próximo dia 9, em Goiás, e em seguida vai embarcar para o Mato Grosso do Sul. A agenda prevê um roteiro que inclui, pela ordem, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Tocantins e, segundo ele, inclui “um mergulho” no Nordeste, além de uma visita “respeitosa” ao Rio Grande do Sul, base de seu adversário. 

“Vou viajar o Brasil nos finais de semana para debater com a militância. Estarei em todas as regiões do Brasil até outubro. E vou usar uma calça justa e o mesmo par de tênis que usei nas prévias de 2016 (para a Prefeitura) e 2018 (para o governo)”, brincou o governador em entrevista ao Estadão. A calça justa e o tênis tem sido alvo de chacota dos bolsonaristas, mas o tucano abraçou a brincadeira em suas redes sociais. 

Segundo Marco Vinholi, presidente do PSDB-SP e secretário de Desenvolvimento Regional do governo paulista, a ideia é organizar encontros institucionais partidários com prefeitos, vereadores, deputados e dirigentes partidários locais, que formam uma parte importante do colégio eleitoral tucano.  

A executiva do partido definiu que o eleitorado será dividido em 4 grupos, cada um com peso de 25%: 1 - filiados 2 - prefeitos e vice prefeitos, 3 - vereadores, deputados estaduais e distritais, 4 - governadores, vices, ex-presidentes nacionais da sigla, deputados federais, senadores e o atual presidente do partido, Bruno Araújo. O percentual de cada concorrente nestes grupos será levado para a contabilidade final. 

Leite foi o único que não quis falar sobre prévias com a reportagem e escalou o deputado federal Lucas Redecker, presidente do PSDB-RS, como seu interlocutor. O chefe do Executivo gaúcho já fez sua primeira viagem na semana passada, para o Espírito Santo, e planeja também uma sequência de visitas aos finais de semana. 

“Vamos fazer campanha dentro dos limites da pandemia, mas visitaremos o maior número de Estados possíveis”, afirmou o parlamentar. Ainda segundo o dirigente, Leite não deixará o PSDB em caso de derrota, como especulam lideranças de outras legendas. Redecker calcula ainda que o governador tem maioria do apoio nas bancadas do Congresso.       

Vinholi minimiza o cálculo do adversário. "O João (Doria) ampliou seu apoio na bancada e vai buscar a maioria. Nosso objetivo é chegar a 20 deputados federais", afirmou o tucano paulista. A bancada tem 30 deputados federais e a executiva 32 membros. Ao todo, são 7 deputados paulistas. É consenso entre os grupos envolvidos nas prévias que, pelo retrato atual, o governador de São Paulo está em desvantagem no grupo 4, que inclui a burocracia partidária e os parlamentares de Brasília. 

Tasso, que defendeu o modelo de prévias por voto indireto e com pesos diferentes, o que foi criticado por Doria, acredita que o governador paulista leva vantagem na largada.  

“Esse modelo é o melhor nessa eleição. Ninguém tem uma atualização do cadastro de filiados. O partido nunca fez prévias nacionais antes. Muitos filiados já morreram. Alguns estão desligados, outros mudaram de partidos. E tem de ter uma representatividade de quem tem mandato. Mesmo nesse modelo, o Doria sai numa vantagem grande. O partido tem em SP o maior número de vereadores, prefeitos e deputados estaduais. No outro modelo, qualquer candidato de São Paulo teria vitória garantida”, afirmou o senador.   

Correndo por fora, o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, disse que também pretende viajar para muitas cidades a partir do dia 15 de julho e pediu ajuda do partido para os deslocamentos. “Vai ser uma coisa espartana, mas pretendo conversar com a militância e com a mídia local. Quero levar a pauta da Amazônia para o debate”, afirmou. 

Ao avaliar o quadro nacional de polarização, Tasso admitiu que “não necessariamente” o candidato da terceira via será do PSDB. 

“É uma coisa muito lógica, e não opinião ou sentimento. Se você for para uma partida que já tem 30% de um lado e 25% do outro, sobram 50% ou 40% de margem para disputar. Isso indica que é preciso chegar no 1°turno com no mínimo 25% para poder chegar ao 2° turno. Temos que nos unir no PSDB, mas também com outros ‘candidatáveis’. Aquele que somar mais e tiver mais poder de agregação será o candidato. Se não vamos entrar numa aventura para legitimar esse quadro de extremos que temos aí.”

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