Alex Silva/AE
Alex Silva/AE

Tucanos e petistas agora travam ‘guerra ética’ por vaga no 2º turno em SP

FHC ‘conclama’ intelectuais a se engajarem numa luta pela ‘recuperação moral’ do País; campanha de Haddad já prepara contra-ataque

Bruno Boghossian e Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo

18 de setembro de 2012 | 22h30

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conclamou na terça-feira, 18, intelectuais simpáticos ao PSDB a se engajarem numa luta pela "recuperação moral" da política do País com o apoio à candidatura de José Serra (PSDB). Enquanto isso, a coordenação do comitê de Fernando Haddad (PT) batia o martelo sobre a exploração, na campanha, de escândalos que envolvem os tucanos e seus aliados.

Ao participar na terça de ato de campanha do tucano no cinema Reserva Cultural, na Avenida Paulista, FHC fez uma referência indireta ao julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal. Disse que a democracia brasileira "começa a ser minada por dentro" e fez um "chamamento" a favor do PSDB na disputa eleitoral paulistana. "Serra é o candidato que representa um reencontro do Brasil com a sua história de luta pela democracia. É o candidato da gente de bem e decente. É capaz pela preparação e pelo estudo, não pela esperteza e pela malandragem", afirmou FHC.

Serra e Haddad estão tecnicamente empatados em segundo lugar nas pesquisas e lutam por uma vaga no 2.º turno contra Celso Russomanno (PRB), líder nas pesquisas de intenção de voto.

A campanha de Haddad pretende explorar o escândalo na aprovação de empreendimentos imobiliários da gestão Gilberto Kassab (PSD). A crise foi exposta pela evolução patrimonial de Hussain Aref Saab, ex-diretor do setor de aprovação de prédios da Prefeitura (Aprov), que adquiriu 106 imóveis quando trabalhou no governo. Aref foi nomeado para o cargo por Serra, quando o tucano ainda era prefeito.

Os petistas também pretendem ligar o engenheiro Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, ao candidato do PSDB. Ex-diretor da Dersa, ele foi apontado pela Polícia Federal como responsável por contatos entre a estatal paulista e a empresa Delta Construções e chegou a depor na CPI do Cachoeira, onde negou ter feito caixa 2 para campanhas de Serra.

O embate ético entre as campanhas ganha peso 24 horas depois de a Executiva Nacional do PT ter convocado militantes para uma "batalha do tamanho do Brasil", com o objetivo de defender o governo Luiz Inácio Lula da Silva em meio ao julgamento do mensalão.

A equipe de Serra reforçou o discurso ético contra os petistas, levando para a propaganda eleitoral na TV peças que ligam o próprio Haddad ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e ao ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, réus do processo do mensalão. Dirceu era o homem forte do governo Lula até 2005, quando foi abatido pela crise.

‘Recorrência’. No ato de terça, do qual participaram o reitor da USP, João Grandino Rodas, a atriz Beatriz Segall e o maestro Júlio Medaglia, FHC foi taxativo: "Depois de vários anos em que o Brasil ganhou democracia, conseguiu avanços econômicos e avanços sociais, esta mesma democracia começa a ser minada por dentro pela falta de crença que advém da percepção que existe no País por práticas correntes e recorrentes".

Em um vídeo divulgado na terça, o ex-presidente citou especificamente o julgamento do mensalão no STF e afirmou que "ninguém tem o direito de calar" o debate sobre o escândalo.

"Estamos assistindo no Brasil a um julgamento importante sobre um fato gravíssimo, cujas consequências sabe Deus quais serão", disse o tucano.

Ao tomar o microfone no evento com FHC, Serra manteve foco sobre o mensalão e reforçou o discurso ético de sua candidatura.

"Essa questão que está no Supremo Tribunal Federal, esse julgamento, é o começo do fim da impunidade no Brasil. Temos que voltar a valorizar a ética e a moral", disse. "Agora, precisamos traduzir isso também em resultados eleitorais."

O tucano também criticou o "fisiologismo" e o "aparelhamento" do governo federal pelo PT, insinuando que a vitória de Haddad ou Russomanno representariam um risco.

Para o presidente do PT, deputado Rui Falcão, Serra e Fernando Henrique deviam olhar para o próprio PSDB. "Qualquer movimento de recuperação moral deve começar por passar a limpo a privataria do governo tucano e os esclarecimentos sobre a compra de votos para aprovar a reeleição, em 1997", disse.

As campanhas de Haddad e Serra enfrentam o dilema de atacar a candidatura de Russomanno sem provocar os eleitores dele. O PT pretende mostrar o candidato do PRB como um empresário rico, embora ele se apresente como "um homem simples e do povo". Já os tucanos planejam distribuir folhetos com reportagens que levantam suspeitas sobre a vida política de Russomanno.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.