Tucanos dissidentes na CCJ podem ser trocados

Eventual denúncia contra Temer aumenta pressão para comissão formar maioria em defesa do governo na Câmara

Renan Truffi e Igor Gadelha, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2017 | 20h58

BRASÍLIA - Responsável por avaliar um eventual pedido de denúncia contra o presidente Michel Temer, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados virou novo palco de queda de braço entre governistas e o PSDB. Dos 67 membros da comissão, sete são tucanos, mas a maioria deles estaria favorável à abertura das investigações contra o presidente. Diante da constatação, o líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), foi pressionado a trocar os nomes tucanos no colegiado.

A reportagem do Broadcast Político apurou que a pressão vem tanto de governistas quanto de tucanos interessados na manutenção da aliança com o Palácio do Planalto. Apesar disso, Tripoli nega que tenha recebido qualquer consulta sobre a possibilidade de mudança da composição do partido nessa comissão. "Não existe qualquer chance de troca. Eu disputei o cargo de líder com outros dois candidatos e defendi exatamente a independência da bancada. Não há motivo para trocar os membros", enfatizou.

Atualmente, os sete tucanos na CCJ são: Betinho Gomes (PE), Elizeu Dionizio (MS) Fabio Souza (GO), Jutahy Junior (BA), Paulo Abi-Ackel (MG), Rocha (AC) e Silvio Torres (SP). Os sete têm evitado dizer, antes da apresentação da denúncia, se vão votar pela abertura ou não da investigação contra Temer, mas internamente seis deles estariam inclinados a votar a favor do pedido da Procuradoria-Geral da República. Na prática, o placar tucano seria de 6 a 1 contra o presidente.

Vice-líder do governo na Câmara, o deputado Beto Mansur (PRB-SP) revelou que começou a fazer um levantamento com os membros da CCJ para averiguar como devem votar em relação a eventual denúncia. Membros que demonstrarem um comportamento desalinhado com os interesses do Planalto deverão ser substituídos, mas até o momento os líderes partidários não fizeram mudanças na composição da comissão. "Comecei a preparar para não ter erro", disse. Segundo ele, o governo tem a maioria na comissão para barrar a denúncia.

Apesar da decisão do PSDB de permanecer no governo, os "cabeças-pretas", ala jovem do partido defensora do desembarque do governo, continuam articulando para que o partido abandone a base aliada. Nesta terça-feira, 13, um grupo de deputados pró-desembarque se reuniu na Câmara para discutir como se comportarão daqui em diante. Esses deputados estudam marcar posição, publicamente, para demonstrar que discordam dos rumos adotados na Executiva. Eles avaliam, no entanto, que ainda é muito cedo para fazer uma sinalização contrária à definida pela maioria dos tucanos. Por isso, é possível que os cabeças-pretas voltem a se manifestar publicamente somente na semana que vem.

O mais incisivo dos tucanos têm sido o deputado Daniel Coelho (PE), que promete começar a atuar de maneira independente no Congresso Nacional. A crítica do parlamentar tucano é que a decisão de ficar na base aliada "deixa dúvidas", segundo ele, sobre eventual participação dos tucanos em um grande acordo político nacional contra o avanço das investigações da Operação Lava Jato no País.

"Como mostrar hoje para a população que há uma acordão da política, mas que nosso acordo é com a sociedade? A gente só pode mostrar isso se a gente estiver fora dos cargos e apoiando a agenda (de reformas). Aí a gente mostra que o nosso compromisso é com o País e não com esse arrumado que está sendo feito para manter o governo Temer", argumentou. "Você só mostra que está fora do acordo com suas atitudes. Neste momento, a participação (do PSDB) no governo não comprova que você está fazendo um acordo, mas coloca em dúvida. E eu acho que essa não é a hora de deixar dúvidas. É hora de deixar as instituições funcionarem", complementou.

No fim do dia, os cabeças-pretas também pediram um encontro com o presidente interino do PSDB, Tasso Jeiressati (CE). A conversa ocorreu no gabinete do senador no Senado. Eles enxergam no tucano um aliado, já que ele admitiu que foi voto vencido na reunião da Executiva Nacional. "Esse não é meu governo, não é o governo dos meus sonhos. Não votei nem nele (Temer) nem nela (Dilma). Estão aí por causa da circunstância do País nos levou a isso", disse o presidente interino na ocasião.

Relator. Além da troca de membros, o governo também já discute quem será o relator da denúncia na CCJ. Governistas descartaram o nome do deputado Alceu Moreira (PMDB-RS) como possível relator. Até então, ele era o mais cotado para assumir o posto, em razão de seu perfil beligerante e resistente à pressão popular.

O peemedebista, porém, foi citado na delação de funcionários do frigorífico JBS. Executivos da empresa relataram pagamento de R$ 200 mil em espécie de propina ao peemedebista em agosto de 2014, o que ele nega.

Com Alceu descartado, governistas trabalham hoje com dois nomes do PMDB para relatar a denúncia: Sérgio Sveiter (RJ) e Jones Martins (RS). Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, Martins se ofereceu para relatar. O peemedebista gaúcho não é suplente de deputado, mas está no exercício do mandato.

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