Tucanos articulam CPI da Bancoop

Cooperativa é alvo de suspeita de desvio de dinheiro de mutuários e formação de caixa 2 para campanhas do PT

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

O PSDB quer abrir CPI na Assembléia Legislativa de São Paulo para investigar a Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) - reduto do PT que é alvo do Ministério Público por suspeita de desvio de dinheiro de mutuários e formação de caixa 2 para financiamento de campanhas eleitorais do partido. Com 23 deputados e uma sólida base aliada que assegura ao governo José Serra (PSDB) 73 dos 94 votos da Casa, os tucanos querem abrir as contas da Bancoop. Eles declararam sua linha de trabalho ontem à tarde a cerca de 200 cooperados que tomaram o Auditório Franco Montoro durante audiência da Comissão de Defesa dos Direitos do Consumidor.As lideranças de outros dois partidos, o PPS (com 5 deputados) e o PSOL (2), já manifestaram apoio à CPI. São exigidas 32 assinaturas para formalização do pedido. Em plenário, a proposta deve ser referendada por 48 deputados. "Há necessidade de uma CPI com o objetivo de resolver o grave problema que aflige os cooperados", assinalou Samuel Moreira, líder do PSDB. "A Casa é eminentemente política, mas não queremos demonizar ninguém, apenas uma solução", emendou o deputado Bruno Covas (PSDB)."Vamos fazer um acordo: abrimos a CPI da Bancoop, mas também vamos abrir a CPI do caso Alstom", reagiu o líder do PT, Roberto Felício. Ele se referia ao suposto esquema de propinas da multinacional francesa a políticos e autoridades ligadas ao PSDB em São Paulo.Felício anotou que a Bancoop já está sob devassa da promotoria criminal. "Não tenho nada contra que a Assembléia investigue tudo, mas é evidente que estão usando dois pesos e duas medidas", disse o líder petista. "É uma desonestidade intelectual. Quando dizem que vão propor CPI da Bancoop estão criando falsa ilusão nesses mutuários que se sentem prejudicados porque essas pessoas devem ser informadas que não cabe CPI para investigar problema de instituição de direito privado. É jogada demagógica."OBSTÁCULONa atual legislatura, instalada há 15 meses, o PT pediu 13 CPIs, inclusive uma para os cartões corporativos do Palácio dos Bandeirantes, uma a respeito da CDHU e também para a Alstom. Mas o maior partido de oposição, com 20 deputados, não teve êxito em nenhuma investida, pois esbarrou na falta de apoio às suas pretensões. Além disso, já existem 5 CPIs funcionando e 18 na fila de espera. A lógica da Casa é pela obediência à ordem cronológica.Os cooperados aplaudiram a idéia da CPI da Bancoop. "A CPI pode quebrar sigilo bancário e pode convocar", declarou Samuel Moreira, diante da falta de pulso que caracteriza os trabalhos de uma comissão temática, como a do Consumidor.Pela segunda vez o presidente da Bancoop, João Vaccari Neto, evitou encontro público com os mutuários nas dependências da Assembléia. Em carta aos parlamentares, que foi lida pelo deputado Alex Manente (PPS), presidente da Comissão do Consumidor, ele alegou "motivos completamente alheios à sua vontade" para não depor.Quando não atendeu ao primeiro convite, há duas semanas, o próprio Vaccari sugeriu a data de ontem para falar da Bancoop. No ofício pediu "sinceras desculpas" e reiterou que "está à disposição". Irritada, a multidão de cooperados vaiava a cada vez que seu nome era citado.Manente recomendou aos manifestantes que adotem a pressão como meio de convencer os deputados a aderirem à CPI. "Toda manifestação popular é válida, os poderes têm que ouvir a vontade popular." Mesmo sem quórum, pois só havia três deputados à mesa, a comissão anunciou que vai requerer cópia das atas da Bancoop desde sua criação, em 1996.A Bancoop não se pronunciou sobre a CPI. A cooperativa informa que "as obras são tocadas de acordo com o fluxo de caixa de cada um dos empreendimentos e todos possuem conta corrente individualizada". Sobre as denúncias de irregularidades na administração, a presidência da Bancoop destaca que "todos os fatos divulgados correspondem aos anos de 2001 e 2002, quando os responsáveis pela gestão da entidade não são os atuais gestores da mesma".Até hoje, afirma a Bancoop, já foram entregues 5.627 unidades habitacionais, "restando apenas 1.187 cooperados para receberem suas unidades". Ao todo, foram concluídos 39 empreendimentos.

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