Rogério Melo/PR
O presidente Michel Temer Rogério Melo/PR

Tucanos ainda condicionam apoio a Temer

Para FHC, pesa sobre a permanência do PSDB no governo a ‘sucessão de denúncias’; segundo Alckmin, foco não é eleição, mas as reformas

Adriana Ferraz e Pedro Venceslau , O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2017 | 05h00

Após o PSDB decidir nesta semana manter o apoio ao governo Michel Temer, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Geraldo Alckmin – dois dos mais importantes expoentes tucanos – reforçaram nesta quinta-feira, 15, em entrevistas ao Estado, condicionantes para continuar na base.

A porta de saída para o PSDB ficou aberta. Para FHC, pesa a sucessão de denúncias contra o governo para mantê-la destrancada. Alckmin aponta para a necessidade da realização das reformas e seu êxito. Ambos, no entanto, reforçam que a postura atual do partido não reflete interesses pessoais nem eleitorais.

Para o governador paulista, se o foco dos tucanos neste momento fossem as eleições do próximo ano, a solução passaria por uma saída imediata. Segundo FHC, a situação do País é “demasiado crítica” para que interesses pessoais tivessem prevalecido durante a reunião das lideranças tucanas em Brasília, na segunda-feira. A legenda participa hoje do governo Temer com quatro ministérios – Relações Exteriores, Cidades, Governo e Direitos Humanos.

No Congresso, o apoio pode representar até 46 votos de deputados e dez de senadores. Após escapar de uma cassação, na semana passada, pelo Tribunal Superior Eleitoral, Temer já calcula os votos que precisará reunir para evitar que a Câmara dos Deputados autorize o Supremo Tribunal Federal a instaurar uma ação penal contra ele. Isso no caso de o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentar de fato uma denúncia. 

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'Cautela é conveniente, covardia, não', afirma FHC

Ex-presidente justifica ‘porta aberta’ para saída do governo em razão da sucessão de denúncias contra presidente Temer

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2017 | 05h00

ENTREVISTA: Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ex-presidente da República

A decisão do TSE sobre a chapa Dilma-Temer foi correta?

Não. Se eu concordasse, deveria ter-me oposto à causa proposta pelo PSDB. Entendo os argumentos que basearam a negação de procedência da causa por temor de suas consequências – três votos do tribunal anulando uma decisão soberana do eleitorado. Mas neste caso seria melhor nem abrir a possibilidade de haver o recurso.

O que achou da decisão do PSDB de manter apoio ao governo, mas deixar uma porta aberta para a saída? 

Na atual conjuntura, era o que, no mínimo, teria de ser feito diante da sucessão de denúncias (contra o governo).

O senador Tasso Jereissati é o melhor nome para presidir o partido? 

O Tasso é, sem dúvida, plenamente capacitado para dirigir o partido, mas há uma preliminar: o titular (Aécio Neves) está afastado, não renunciou.

Os interesses políticos de Aécio Neves e Geraldo Alckmin pesaram na decisão do PSDB de ficar no governo?

Não creio. A situação do País é demasiado crítica para que eventuais interesses pessoais tivessem prevalecido.

As implicações da Lava Jato devem nortear agora a posição do partido? 

Elas tiveram e terão impacto.

Como avalia a proposta de antecipar a escolha da nova Executiva tucana para agosto ou setembro?

Não estou no Congresso nem na direção do PSDB para avaliar corretamente.

O governo Temer tem legitimidade para fazer as reformas que o PSDB se diz fiador?

Até agora o governo tem sido capaz de obter apoios no Congresso. Independentemente disso, o País precisa das reformas e o PSDB deve lutar para que nelas os desiguais não sejam tratados do mesmo jeito que os privilegiados. Pelo que vi no Senado, o PSDB assegurou mais a reforma trabalhista do que o PMDB que é quem afinal governa.

Um grupo de 17 deputados do PSDB do bloco autodenominado “cabeças pretas” abriu uma dissidência na bancada, liderada pelo deputado Daniel Coelho (PE). Militantes do partido, alguns históricos como Miguel Reale Júnior, estão deixando a legenda. O PSDB está passando por seu pior momento? 

O Brasil, melhor, os brasileiros estão divididos, não só o PSDB. Mas a imensa maioria está unida contra a corrupção e a favor de passar a limpo as instituições. Os “cabeças pretas” temem que os “cabeças brancas”, e olha que meus cabelos são mais do que brancos, se acomodem ao poder. Não creio: cautela é conveniente, covardia, não. Haverá o toque de reunir.

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'Se fosse para pensar em 2018, solução seria sair', diz Alckmin

Governador paulista nega que continuidade do apoio do PSDB a Temer seja moeda de troca por aliança no próximo ano

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2017 | 05h00

ENTREVISTA: Geraldo Alckmin (PSDB), governador de São Paulo

A decisão do PSDB de permanecer na base do presidente Michel Temer passa pela costura de uma aliança com o PMDB para 2018? 

A decisão do partido de continuar até o final das reformas apoiando o governo e suas medidas, acompanhando a cada semana o desenrolar dos fatos, não tem nada a ver com 2018.

Uma aliança com o PMDB não seria bem-vinda ou não está sendo cogitada agora?

Não é que não seria bem-vinda, é que não é esse o foco. Não é pensando em 2018 que o PSDB tomou a posição de continuar. Fez isso porque entendeu que, neste momento, sair do governo prejudicaria ainda mais o Brasil, que está começando a se recuperar, com indicadores positivos do PIB e do emprego e com a reforma trabalhista aprovada pela Câmara dos Deputados. Então, neste momento seria muito prejudicial ao Brasil e nós temos de proteger o Brasil.

Não tem nenhum interesse partidário de aliança então?

Até o contrário disso. Se fosse para pensar em eleição, esse é o argumento de muita gente (referindo-se aos cabeças pretas) para sair, porque a popularidade está muito ruim. Mas temos de agir com espírito público e ele nos orienta a esperar para terminar a reforma trabalhista, concluí-la até a sanção presidencial. A reforma previdenciária é mais difícil porque é emenda constitucional, mas vamos ajudá-la porque é importante para o País, e a reforma política, que tem de ser feita até setembro, um ano antes da eleição do ano que vem.

Esse é um novo prazo de permanência no governo? O fim de todas as reformas?

Não é que é um novo prazo. Nós temos de permanentemente estar acompanhando o desenrolar dos fatos e nosso compromisso é com a retomada do crescimento e do emprego e renda. Para isso, há necessidade de se fazer reformas. Precisamos valorizar a reforma trabalhista, que é histórica. Com ela vamos sair de um modelo autárquico, de cima para baixo, para um modelo moderno, de relações contratuais. Ela vai aumentar o emprego no Brasil e diminuir a informalidade. É importantíssima para estimular o emprego.

Ao menos um fato novo pode surgir já na semana que vem, caso o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresente realmente uma denúncia contra o presidente Temer. Neste caso, qual deve ser a postura do PSDB na Câmara? O partido vai rachado para a votação no plenário?

Vamos aguardar, não vamos nos precipitar. Não houve nem sequer a denúncia ainda. O importante é destacar que a decisão do partido (em continuar apoiando o governo) foi tomada pensando no interesse político. Se fosse para pensar em 2018, aí sim a solução seria sair imediatamente. O que eu acho que temos de fazer agora, em primeiro lugar, é uma nova convenção e uma nova executiva. E já quero antecipar que o Tasso (Jereissati, presidente interino do PSDB) é meu candidato.

Mas pode-se fazer isso sem uma renúncia do Aécio? 

O estatuto do PSDB permite uma eleição e uma reeleição. Já tinha acontecido isso. O que houve foi uma prorrogação do mandato e pode-se interromper essa prorrogação. 

 

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