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Tsunami

Ao mirar o Meio Ambiente, Bolsonaro assusta e alimenta a oposição a ele na sociedade

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2019 | 05h00

Está cada vez mais claro que os alvos do presidente Jair Bolsonaro são ditados por ideologia, numa guerra santa contra “esquerdopatas”, reais ou imaginários, em áreas estratégicas do País. De um lado, escancara a posse e o porte de armas. De outro, atira em universidades, pesquisas, área de Humanas, ambiente, ONGs e conselhos.

Ao reagir ao tal Olavo de Carvalho, o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas disse que, “substituindo uma ideologia pela outra, (ele) não contribui para (...) a solução concreta dos problemas brasileiros”. Perfeito. Nota mil.

Pois o presidente Bolsonaro governa como se não houvesse nada além de direita versus esquerda. Depois de tantos anos sujeito aos erros da esquerda, o Brasil está à mercê dos erros da direita.

Depois de partir para cima das universidades, onde jovens continuam sendo jovens, aqui e em toda a parte, o governo desloca suas metralhadoras, fuzis, revólveres e todos os cartuchos contra o Meio Ambiente, uma das áreas do Brasil com maior prestígio no mundo, pela biodiversidade invejável, pelo rigor das leis, pela credibilidade de especialistas e técnicos.

Desde a campanha, Bolsonaro já demonstra, no mínimo, um desconhecimento e um desdém pela preservação e a sustentabilidade. Seu chanceler, Ernesto Araujo, foi além ao falar ironicamente em “ambientalismo”, que seria uma militância a serviço das esquerdas internacionais, junto com Direitos Humanos, por exemplo, para destruir os valores cristãos do Ocidente.

Depois, Bolsonaro pensou até em extinguir o ministério. Desistiu, mas escolhendo um ministro praticamente alheio à problemática ambiental, o advogado e administrador Ricardo Salles. E, ao assumir a Presidência, passou a usar o cargo para uma revanche.

Em janeiro, o Ibama anulou a multa aplicada ao cidadão Jair Bolsonaro por pescar na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis (RJ), o que é proibido por lei. Em março, o fiscal que cumpriu a lei foi exonerado. Na semana passada, a retaliação foi ampliada para a própria Estação de Tamoios, quando o agora presidente, numa “visão progressista”, disse que ela “não preserva nada” e defendeu transformá-la na “Cancún brasileira”, trazendo bilhões de reais para o turismo.

Essas investidas combinam à perfeição com todos os passos do Ministério do Meio Ambiente, que pretende, por exemplo, liberar leilões de exploração de petróleo no Parque Nacional de Abrolhos (BA), um santuário ecológico admirado em todo o mundo.

Além de trocar especialistas e técnicos do Ibama e do Instituto Chico Mendes por militares, o ministro também anuncia, como vem noticiando o Estado, que vai promover uma revisão geral das 334 áreas de proteção ambiental do País e abrir a concessão de paraísos como os Lençóis Maranhenses (MA), a Chapada dos Guimarães (MT) e o Parque Nacional de Jericoacoara (CE) à iniciativa privada. Nada contra a iniciativa privada, mas é preciso saber exatamente como e com que objetivos esses tesouros nacionais serão usados.

Oito ex-ministros do Meio Ambiente, de diferentes partidos e tendências, estão estupefatos e preocupados. Eles defendem o diálogo e focam no governo, não em Salles. Acham que ele não sabe nada da agenda ambiental federal, estadual e internacional e “age como o ministro da agricultura, da exploração e da mineração na área ambiental”.

Bolsonaro previu “um tsunami” nesta semana. Não se sabe o que será. O fato é que ele atrai a ira de professores, estudantes, artistas, ambientalistas, a área de direitos humanos e a comunidade internacional. Mas isso é política. O principal é que o meio ambiente não comporta arrependimento. Depois de destruir, é impossível recompor.

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