Twitter/Reprodução
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TSE montou operação de guerra com 16 pessoas para rebater Bolsonaro sobre urna eletrônica

Equipe de comunicação do TSE definiu as estratégias para desmentir eventuais notícias falsas a partir do momento em que foi feito o anúncio da live

Weslley Galzo, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 19h29

BRASÍLIA - O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contou com uma equipe de 16 profissionais dedicados exclusivamente às tarefas de checar e distribuir informações nas redes sociais durante a live realizada pelo presidente Jair Bolsonaro na noite de quinta-feira, 29. O evento prometia ser o desfecho do tumultuado histórico de promessas de que ele teria provas de supostas fraudes eleitorais. Ele alega que a manipulação teria ocorrido tanto no pleito que o elegeu em 2018, como na disputa que reconduziu Dilma Rousseff (PT) ao cargo de presidente, em 2014. Bolsonaro, porém, ofereceu ao público uma combinação de fake news, vídeos datados e fora de contexto e análises enviesadas sobre números oficiais da apuração dos votos. 

Durante a transmissão ao vivo, a equipe do TSE fez treze publicações no Twitter e enviou ao menos sete boletins com checagens de informação à imprensa. Dentre os profissionais que integraram a força-tarefa, estão os 11 funcionários da Secretaria de Comunicação do Tribunal, o secretário de Tecnologia da Informação, Júlio Valente, e quatro integrantes do Comitê de Desinformação chefiado pela secretária-geral da Presidência da Corte, Aline Osório. “Foi um trabalho inovador para uma instituição pública”, disse Giselly Siqueira, secretária de Comunicação e Multimídia.

“Ontem foi um caso inédito, porque nós tínhamos um presidente da República fazendo uma live com possibilidade de uma denúncia a respeito da urna eletrônica. Nós tomamos a decisão de que era o momento de ter uma ação eficaz e rápida para esclarecer”, afirma Giselly. “Em nenhum momento pensamos em ficar desmentindo, porque nós não sabíamos o que iria vir. A questão da desinformação não é nova, mas é séria e está sendo enfrentada por todo mundo. Para uma instituição da Justiça Eleitoral foi muito desafiador fazer essa cobertura”.

O Twitter foi a rede social escolhida pelo Tribunal para concentrar os esforços contra a disseminação de notícias falsas. A preferência se deu pelo caráter imediatista e informativo da rede, que, no entanto, é preterida pelos grupos que orbitam ao redor do presidente Jair Bolsonaro. Justamente por seu caráter pessoal e informal, o WhatsApp e o Telegram recebem muito mais atenção de bolsonaristas. Segundo Giselly, “o risco seria deixar as informações equivocadas serem amplamente divulgadas sem ter a informação correta para contrapor”.

Sabendo do desafio, o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, orientou a participação de secretários da Corte na operação extraordinária de checagem. Funcionários do alto escalão, Júlio Valente e Alino Osório integram um núcleo do Tribunal criado recentemente pelo magistrado, cuja função é acompanhar qualquer manifestação que diga respeito à segurança do processo eleitoral. Juntos, eles têm a função de dar continuidade e aprimorar a campanha permanente contra a circulação de notícias falsas sobre as eleições e a urna eletrônica. Antes mesmo da live de Bolsonaro, o Tribunal já dedicava recursos ao combate da desinformação.

A secretária de Comunicação do Tribunal conta que quase todos os “indícios” de fraude - como classificou o presidente Jair Bolsonaro -  apresentados durante a transmissão tratavam-se de notícias falsas já refutadas pela equipe de checagem do TSE. “Antes da live, houve um aumento muito grande de circulação de boatos antigos. A maioria deles já haviam sido desmentidos por nós em outras oportunidades”, afirma.

“Quando começamos a ver o que ele estava trazendo, constatou-se que já tínhamos todas as respostas. A gente se preparou da seguinte forma: temos essas informações, se vier algo novo temos o secretário de Tecnologia para analisar a questão técnica”, disse.  

A preparação para o evento ocorreu assim que o presidente anunciou a data da live. Com o dia em mente, Giselly reuniu a equipe para organizar a cobertura, delegar tarefas e fortalecer nas redes sociais as informações sobre o processo eleitoral. Segundo a secretária, o trabalho antes da transmissão ao vivo consistiu em identificar os boatos em circulação e desmentí-los antecipadamente.

Ela conta que a única informação que pegou o Tribunal de surpresa durante a transmissão foi a crítica do presidente à apuração minuto a minuto na capital paulista durante as eleições municipais do ano passado. Bolsonaro queixou-se da evolução dos resultados na disputa que consagrou a reeleição de Bruno Covas (PSDB) em cima de Guilherme Boulos (PSOL) pela Prefeitura de São Paulo. Para responder ao presidente, o TSE já começou a analisar a base de dados em que consta a entrada dos votos em tempo real.

Nas campanhas corriqueiras do TSE contra a desinformação, as agências de checagem de fatos surgem como grandes aliadas. Nesta quinta-feira, porém, o núcleo de cobertura da live optou por utilizar somente as notícias produzidas pelo Tribunal. 

Tendo em vista o caráter institucional da cobertura, o TSE preferiu não emitir notas à imprensa. Por não haver provas de fraude eleitoral, a compreensão foi de que a pauta deveria ser tratada no plano da comunicação, restringindo-se à checagem das informações, sem posicionamentos a respeito do conteúdo apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

Enquanto o TSE contou com uma mega-operação, a estrutura adotada pelo Palácio do Planalto para retratar a possibilidade de manipulação dos resultados eleitorais consistiu em dois telões, onde foram reproduzidos vídeos com supostas evidências de fraude, e uma animação para explicar o funcionamento do voto impresso - pauta amplamente defendida por Bolsonaro. Além disso, o coronel da reserva Eduardo Gomes, assessor da Casa Civil, acompanhou o presidente durante a transmissão ao vivo na função de porta-voz do suposto programador que teria municiado o governo federal com as já desmentidas evidências de interferência nas eleições.

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