Tropa segue script do acordo e livra tucano

Presidente do conselho arquiva ação contra Virgílio

Eugênia Lopes, Christiane Samarco e Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

13 de agosto de 2009 | 00h00

Um dia após a oposição ter baixado o tom no plenário da Casa contra o presidente José Sarney (PMDB-AP), o senador Paulo Duque (PMDB-RJ), presidente do Conselho de Ética e membro da base aliada, mandou arquivar ontem a representação por falta de decoro parlamentar contra o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM). Foi a primeira cena explícita do acordo para esvaziar a crise do Senado, conforme o roteiro traçado entre governo e oposição.A crise, neste primeiro momento, ficará circunscrita ao conselho, antes de ser enterrada. O PMDB, autor da representação contra o tucano, vai recorrer da decisão de Duque, a exemplo da oposição, que pediu o desarquivamento de 11 ações contra Sarney. O partido fará isso apenas para seguir o script definido pelo entendimento.A ideia é engavetar todos os recursos na semana que vem. Os primeiros a serem votados serão os referentes a Sarney - 11 representações e denúncias do PSDB e do PSOL. Se for confirmado o engavetamento, a representação contra Virgílio também se manterá arquivada. São necessários os votos de 8 dos 15 conselheiros para isso.O líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), alegou que recorrerá contra o arquivamento da representação contra Virgílio por reciprocidade. Em conversas reservadas, seu grupo afirmava ontem que Sarney e Virgílio vão juntos, seja para o céu ou para o inferno. A oposição tem cinco votos no conselho e os governistas, dez. O PT é o fiel da balança, com seus três votos.Apesar do acordo, governistas e oposicionistas negaram haver qualquer compromisso para que o conselho breque as investigações. "O importante é recompor as relações. O que houve foi um armistício em relação ao relacionamento, saindo da briga de rua para se ir para a disputa democrática", disse o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR). "Apenas delimitamos o ringue, que fica restrito ao Conselho de Ética.""Considero que apenas me livrei de uma injustiça brutal. Praticou-se uma violência desse porte sobre um réu sem culpa", afirmou Virgílio. Para engavetar a representação, Duque argumentou que os "fatos nela relatados ou não configuram ilícito ou já têm extinta sua punibilidade". Na semana passada, quando o PMDB protocolou a representação, Duque disse que ela estava "muito bem fundamentada e estruturada".O PMDB fez três acusações contra Virgílio: um empréstimo que ele pegou com o ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia quando estava em viagem ao exterior, em 2005, o pagamento irregular de salário a um funcionário que morou na Espanha e gastos acima do permitido com despesas médicas da mãe, pagas pela Casa. Em seu despacho, Duque mandou arquivar a representação por inépcia e rebateu uma a uma das acusações contra Virgílio.PONTOSRenan ganhou pontos no Planalto ao comandar a tropa de choque em defesa de Sarney, acuando os tucanos. Um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ao Estado que o líder do PMDB "puxou a faca no plenário na hora certa, foi para o Conselho de Ética no momento exato e criou praça de guerra com o PSDB", obrigando um recuo estratégico dos tucanos.Na avaliação do Planalto, contudo, não vale a pena esticar mais a corda para o lado do PSDB porque o desgaste - com a paralisação total dos trabalhos do Senado - não compensa a luta política.A cúpula do PMDB, porém, avalia que o PT faz "jogo para a plateia" à custa do partido e de Sarney. Na noite de terça-feira, Renan foi a Lula se queixar do vaivém petista. "O PT quer dar uma de Tiradentes com o pescoço de Sarney", protestou o senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA), resumindo o sentimento geral da tropa de choque sarneyzista. Na mesma terça-feira, Lula conversou com Sarney.A saída que está sendo negociada com o PT é para que o líder da bancada, Aloizio Mercadante (SP), substitua os petistas do conselho que se recusam a votar por aliados de outros partidos. O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), disse estar à disposição para resolver o impasse. Ofereceu-se até para assumir uma das vagas de titular do PT se a líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (PT-SC), sentir-se impedida para votar pelo arquivamento das representações contra Sarney. O que mais enfureceu Renan, levando-o a pedir uma conversa com Lula, foi a decisão de Ideli de se retirar da votação do recurso para reabrir a denúncia contra o presidente do Senado. Ideli é suplente do PT no conselho, mas, na falta de dois titulares, deve ser chamada para votar.No encontro com Lula, Renan afirmou que seu grupo contava com os votos da líder e de Delcídio Amaral (PT-MS). "Não podemos ficar nas mãos do (senador Eduardo) Suplicy (PT-SP)", reclamou o peemedebista a Ideli, referindo-se ao terceiro suplente do PT no conselho.Àquela altura, PT e PSDB já haviam se entendido em torno da conveniência de tocar em paralelo as duas representações - uma contra Sarney e outra contra Virgílio - com o compromisso de matá-las no conselho, sem recurso ao plenário do Senado.

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