Tropa de elite tenta desarmar sem-terra

Jornalistas e advogada mantidos reféns pelo MST são soltos no Pará; governadora diz que clima é calmo

Carlos Mendes, O Estadao de S.Paulo

20 de abril de 2009 | 00h00

A Polícia Militar do Pará deslocou ontem 40 homens de sua tropa de elite, com uma missão de desarmamento, para a região de Xinguara e Eldorado dos Carajás, no sul do Estado, onde no sábado à tarde ocorreu um confronto armado entre integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) e seguranças da Fazenda Castanhais, da Agropecuária Santa Bárbara. A ação deixou oito feridos. Cinco pessoas - quatro jornalistas e uma advogada - chegaram a ser mantidas como reféns, mas já haviam sido libertadas quando a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), autorizou a ida da polícia ao local. Em viagem ao Rio, a governadora afirmou ontem que a situação estava sob controle. "A situação é de tranquilidade, não tem nenhuma estrada obstruída e os feridos, com exceção de uma pessoa que ainda está no hospital, foram liberados. Existem duas versões completamente distintas. Agora vamos apurar qual a verdade, o que realmente aconteceu", disse. A polícia de Redenção informou ao chefe da Casa Civil, Cláudio Puty, que não houve cárcere privado de jornalistas nem de funcionários da Santa Bárbara, pertencente ao grupo do banqueiro Daniel Dantas. O que ocorreu, segundo policiais, foi o bloqueio da estrada durante o tiroteio, o que impediu a saída dos repórteres do local.Os jornalistas, porém, negam a versão da polícia e garantem que ficaram no meio do tiroteio entre os sem-terra e os seguranças da fazenda. Um deles, o repórter cinematográfico Felipe Almeida, da TV Liberal, afiliada da Rede Globo, disse que ele e três colegas de imprensa ficaram "reféns de líderes do MST dentro da fazenda". Segundo Almeida, foram 10 minutos de pânico - os jornalistas teriam sido usados como escudo humano. Os membros do MST, segundo o relato de Almeida, renderam os repórteres quando eles retornavam da sede da fazenda. "Mandaram que desligássemos as câmeras e avisaram que iríamos ficar com eles. E mandaram que andássemos em direção aos seguranças da fazenda", relatou, explicando como os sem-terra teriam usado o grupo como "escudo"."Andamos uns 50 metros em direção aos seguranças armados e ainda alertamos os sem-terra que iria haver tiro. Eles disseram: vocês que estão na frente que se virem." O cinegrafista filmou tudo o que aconteceu. Em uma das imagens, aparecem sem-terra quebrando um carro. Em outra, segurança e agricultores estão baleados.O MST informou que o lavrador Waldecir Nunes, o Índio, baleado por seguranças, levou três tiros, que perfuraram o pulmão direito, o estômago e o intestino. Ele foi operado em um hospital de Marabá, mas os médicos ainda aguardam as próximas 72 horas para dizer se ele corre risco de morte.O segurança Adson Ferreira levou um tiro no osso abaixo do globo ocular. A bala saiu e não provocou lesões no cérebro. Ele corre o risco de ficar cego. ?ABRIL VERMELHO?Em Pernambuco, já chega a dez o número de propriedades rurais ocupadas pelo MST neste mês. No sábado, cerca de 300 famílias ocuparam duas novas áreas nos municípios de Petrolina e Amaraji. Um dia antes, outras 570 famílias participaram da invasão de áreas em cidades da Zona da Mata Norte e da região do Agreste.Segundo a coordenação estadual do movimento, as ações continuarão até o fim do mês. Desde o dia 13, foram ocupadas fazendas, usinas e engenhos em praticamente todas as regiões do Estado, com a participação de aproximadamente 1,4 mil famílias. Desde abril 1996, quando ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, os sem-terra fazem anualmente uma jornada nacional de ocupações, chamada de "abril vermelho".No Rio Grande do Sul, o MST promoveu diversas ações na sexta-feira. Em Canguçu, 200 famílias invadiram a fazenda São João D?Armada, durante a madrugada. Outros 300 iniciaram a Marcha Rumo ao Latifúndio, em São Luiz Gonzaga.Na Região Metropolitana de Porto Alegre, os sem-terra bloquearam por 19 minutos a RS-040, em Viamão, e a BR-290, em Charqueadas.

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