Tropa de choque relativiza até a diferença entre público e privado

Falas revelam justificativas para erros cometidos e repúdio a questionamentos sobre temas polêmicos

Leandro Colon, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

Os recentes discursos, em plenário, da tropa de choque do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), demonstram a defesa de uma doutrina política avessa a reformas e a favor da manutenção do atual padrão de comportamento dos senadores. As entrelinhas das falas oficiais dos aliados de Sarney - sejam lideranças experientes ou suplentes sem currículo - revelam justificativas para os erros cometidos e repúdio a questionamentos sobre temas polêmicos. A começar pela ética. Na noite de quinta-feira, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), da tropa de Sarney, revelou o que pensa sobre o tema. Suas palavras foram ofuscadas pela repercussão do bate-boca envolvendo pouco antes Renan Calheiros (PMDB-AL) e Tasso Jereissati (PSDB-CE). "O padrão de ética não está muito bem definido. Digo isso todo dia", discursou. "A ética praticada aqui é fruto da organização errada desta Casa. A ética que for criada eu vou aderir. Se a ética de vossa excelência é tida como errada, talvez eu tenha alguns erros também."Pouco antes, Renan havia explicado o que entende por ética. "A ética não tem dono. Ninguém é dono da ética, ninguém se convence com a retórica. As pessoas só se convencem com a prática", disse. No mesmo discurso, o senador alagoano defendeu a situação de suplência vivida por Salgado e outros aliados, entre eles Paulo Duque (PMDB-RJ), presidente do Conselho de Ética, que arquivou as 11 ações contra Sarney.Salgado, Duque e os demais suplentes assumiram a vaga de senador sem ter conquistado um único voto - foram indicados pelos titulares durante a eleição. O Senado discute projetos para acabar com isso, mas, na opinião de Renan, não há motivos para mudança. "O suplente existe porque há um mandamento constitucional. Essa coisa de discutir legitimidade de suplente tem de acabar nesta Casa, precisa acabar, porque as pessoas se legitimam na atividade política, no dia a dia. A comunicação virtual obriga que façamos isso todos os dias, todas as horas", argumentou.NAMORADONa quarta-feira, diante de um plenário lotado e em silêncio, Sarney afirmou aos colegas que não há nenhum problema em ajudar a neta a empregar o namorado no Senado. "É claro que não existe o pedido de uma neta que, se pudermos ajudar legalmente, qualquer um de nós não deixa de ajudar", disse o senador, acusado de praticar nepotismo por meio de atos secretos e desvio de verbas da Petrobrás - a estatal investiu R$ 1,3 milhão na Fundação Sarney, mas pelo menos R$ 500 mil foram desviados para empresas, inclusive familiares, que não atendiam à finalidade do convênio.Essas suspeitas e acusações valem pouco ou nada quando se trata de um ex-presidente da República, defendeu Renan da tribuna do Senado, na quinta-feira. Ele repetiu o tom das palavras já proferidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou Sarney de "homem incomum". "O que essas pessoas têm feito com o presidente José Sarney é uma maldade. O presidente Sarney é o presidente da transição democrática do Brasil", ressaltou Renan.PASSAGENSA crise que toma conta do Senado há cinco meses intensificou a discussão sobre a confusão que parlamentares fazem entre o que é público e privado. Usaram, por exemplo, passagens aéreas da cota do Congresso para familiares, utilizaram veículo oficial para fins particulares e empregaram parentes e aliados nos gabinetes. Para Salgado, essa diferença entre público e privado não é relevante. "Essa história de dizer ?eu sou homem público, você é homem privado?, não existe isso! Homem é homem igual. Os seus valores são formados da mesma maneira. Público ou privado é a maneira como você tem de decidir."

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