"Tropa de choque" baiana atrasou votação ao máximo

As mais de sete horas de sessão, na qual foi aprovado o relatório propondo a abertura de processo de cassação, foram marcadas por muita briga, bate-boca e ameaças. A chamada tropa de choque baiana, liderada pelos senadores Paulo Souto (PFL-BA) e Waldeck Ornélas (PFL-BA), esforçou-se para postergar ao máximo a votação. A estratégia se valeu desde argumentos regimentais até a tática simples da irritação direta e objetiva. Os alvos foram o presidente do Conselho de Ética, Ramez Tebet (PMDB-MS), e o relator Saturnino Braga (PSB-RJ). O mais aguerrido da frente de defesa foi Waldeck Ornélas, que aos gritos, insistiu durante todo o tempo em discordar de cada ato de Tebet, desde a decisão de realizar a votação aberta até os mínimos detalhes de encaminhamento. Sem esconder a clara intenção de tumultuar a sessão e resguardar o amigo e protetor político, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), ele não se fez de rogado. "Estamos aqui num Parlamento que renuncia à sua vontade. Sabemos que a opinião pública é manipulada e que não chega ao povão - que está fora da opinião pública ", disse ele, numa insinuação de que vários dos integrantes do Conselho estariam votando apenas para atender às expectativas da população que pede pela cassação. O comentário gerou polêmica no plenário e várias observações paralelas. Um dos momentos de tensão foi provocado pelo próprio Waldeck que chamou Tebet de "autocrata". "O senhor deveria ser mais democrata", disse o senador baiano, aos gritos, dirigindo-se ao presidente. Pela primeira vez durante a sessão, Tebet perdeu a paciência e respondeu aos ataques de Waldeck, iinsinuando que o baiano se comportava como agente de ACM. "Eu só tenho um dono, que é a minha consciência. Não tenho outro dono, só isso que tenho a dizer", reagiu Tebet. Antes, porém, com elegância ele agradeceu à sugestão do senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE), que propôs que ele pusesse mais os temas em debate ao plenário. Saturnino Braga também perdeu a fleuma durante embate com Paulo Souto, que o acusou de divulgar informações obtidas durante a sessão secreta, na qual foram ouvidos os procuradores Guilherme Schelb, Eliana Torelly e Luís Francisco de Souza, que confirmou que ACM havia comentado sobre a existência da lista e que sabia como cada senador havia opinado na votação que levou à cassação do ex-senador Luiz Estevão (PMDB-DF). "Eu lhe dou o direito de abrir contra mim um processo de perda de mandato", disse Saturnino, dirigindo-se a Souto. A discussão foi encerrada por Tebet que lembrou que "todos sabiam" que os procuradores confirmaram a existência da lista, e que neste caso informação secreta alguma foi revelada. A insistência de Arruda e dos baianos em afirmar que não houve quebra de decoro e portanto a cassação era um exagero levou um dos principais constitucionalistas do Senado, Jefferson Péres (PDT-AM) a falar. Ele ressaltou que todos os presentes tinham jurando "respeitar e defender a Constituição" quando assumiram seus cargos. "Um dos artigos da Constituição determina que a votação é inviolável e isso é indiscutível. É quebra de decoro", sentenciou ele. "Se isso não for quebra de decoro, não sei mais o que é quebra de decoro", completou.

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