Trombada na Saúde

A reação do governo à decisão da Conferência Nacional de Saúde de trabalhar contra a aprovação do projeto de fundações públicas para administrar, entre outras entidades, hospitais da rede federal, foi comedida diante do alarme que provocou.O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, manifestou-se no dia seguinte - a deliberação ocorreu no fim de semana -, lembrando que a conferência opina, mas não veta e, portanto, o governo continua "irredutível" na defesa da proposta ora em tramitação na Câmara dos Deputados.Traduzida assim, a cena não parece dramática. Afinal, outras instâncias deliberativas - como, por exemplo, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - tomam posição, externam opiniões e isso não tem a menor influência na condução dos assuntos, no Executivo ou no Legislativo."A diferença é que o conselhão tem 400 pessoas e a conferência reuniu mais de 4 mil", diz o ministro, deixando de acrescentar, mas concordando quando lembrado a respeito, que majoritariamente representam um pensamento predominante na base social do governo Luiz Inácio da Silva, contrário a mudanças em modelos de gestão que signifiquem fim da estabilidade no emprego, adoção de critérios de mérito para contratações e cláusulas de desempenho na administração.Em português claro, o ministro teme que o poder do lobby de gestores e profissionais de saúde, aliados à resistência dos partidos em "despolitizar" o setor, paralise a tramitação do projeto na Câmara. E, sem ele, Temporão não vê a menor possibilidade de melhorar a saúde pública.O ministro é cauteloso, fala em negociação com o PT na Câmara, cedendo no acessório e mantendo a concepção essencial do projeto, avança nas críticas apenas contra o presidente da Conferência Nacional de Saúde, Francisco Batista Júnior, mas sabe muito bem que caminha em terreno minado dentro da base de apoio parlamentar governista.A oposição doutrinariamente não só concorda com o modelo proposto como apresentou projeto semelhante quando estava no governo - devidamente bombardeado pelo PT como "privatista".É o mesmo argumento usado pelos vencedores da conferência, cujas reais intenções, segundo Temporão, resumem-se à defesa corporativa da estabilidade no emprego, "e de uma visão ultrapassada de Estado".Há, na visão dele, "um direcionamento político" do tema. O ministro admite que a repercussão política da decisão da conferência requererá esforço redobrado no Congresso para aprovar o projeto, considerando a dimensão das resistências."Com esse tipo de posição, esse pessoal está, então, dizendo que anda tudo bem com a saúde, o SUS é uma maravilha e a população está plenamente satisfeita", diz o ministro, apresentando o argumento-chave de sua cruzada.Mas, sem querer desanimá-lo, impõe-se a seguinte questão: por que o presidente Lula, que em cinco anos cedeu a todas as pressões do corporativismo, confrontaria parte significativa de sua base social justamente agora, com duas temporadas eleitorais pela frente?Santo de barroA ameaça de Renan Calheiros de reassumir a presidência do Senado foi pura espuma, falta do que dizer no vácuo do adiamento da acertada absolvição, inicialmente marcada para hoje.O presidente licenciado não tem a menor condição política de sentar de novo na cadeira que ocupava.Para isso precisaria mais que ousadia. Precisaria que o Senado se dispusesse a referenciar uma autoridade de quem a Casa já retirou legitimidade e precisaria também que o governo estivesse propenso ao risco de ficar sem os R$ 40 bilhões da CPMF para lhe sustentar o gesto.Como nada disso é possível, restou a renovação da licença, o retorno ao silêncio. O ostracismo é seu único fator de proteção. Se criar confusão, será cassado.Universo paraleloQuando o presidente Lula aceitou fazer de Mangabeira Unger ministro, a despeito de ter sido por ele qualificado como o comandante do governo "mais corrupto" de toda a história do Brasil, soou ilógica a decisão.Agora, com os expurgos no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), subordinado à pasta de Mangabeira, a nomeação faz sentido, dada a adequação do perfil do nomeado às necessidades do serviço: um ser despojado de compromisso com o País.Terça-feira, no Senado, quem assumiu a defesa dos cortes dos economistas divergentes das duras críticas que fazia o líder do PSDB, Arthur Virgílio, foi o senador Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, prócer do PRB, partido de Mangabeira e do vice-presidente José Alencar.A eles o desapreço de Lula pelo valor do pensamento entregou o Ipea, refém de um misto de autoritarismo ideológico, representado na figura do presidente do instituto, Marcio Pochmann, com aparelhamento fisiológico, traduzido na desenvoltura do bispo.

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