Troca-troca não altera correlação no Congresso

A correlação de forças políticas do Congresso Nacional não deve sofrer mudança profunda com o troca-troca partidário que se tornou corriqueiro em anos pré-eleitorais.Deputados e senadores governistas flutuam de uma legenda para outra, sem causar perdas quantitativas à base de sustentação parlamentar do Palácio do Planalto.Na Câmara, o saldo líquido dos quatro partidos governistas - PSDB, PFL, PMDB e PPB - foi uma perda de apenas quatro deputados. No Senado, o déficit foi de cinco senadores aliados.Pelo menos até esta sexta-feira, a bancada do governo continuava forte, com 332 deputados e 57 senadores, sem contar os dissidentes do PTB, do PL e de partidos menores.Mas, ironicamente, foi o PSDB, partido do presidente Fernando Henrique Cardoso, que mais perdeu parlamentares nos últimos 30 dias.A bancada dos tucanos na Câmara deixou de ser majoritária, posição agora do PFL. Desde o início de setembro, 11 deputados deixaram o PSDB em busca de partidos que lhes proporcionem melhores condições para alcançar seus objetivos eleitorais.Apenas um fez o caminho contrário, o pernambucano José Múcio Monteiro. A bancada tucana encolheu de 102 para 92 deputados. Por enquanto, não houve nenhuma baixa expressiva na bancada do PSDB, que havia inchado no início do ano passado, quando foi colocada em marcha a estratégia que conduziu Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência da Câmara.No Senado, o PSDB perdeu seu líder, o senador Sérgio Machado (CE), que esta semana filiou-se ao PMDB.Teve uma baixa expressiva no Paraná com a saída dos irmãos Álvaro Dias e Osmar Dias, que foram para o PDT. Por outro lado, o PSDB, que havia tirado do PMDB o senador Ronaldo Cunha Lima, ex-governador da Paraíba, recebeu o ex-governador do Piauí Freitas Neto, que deixou o PFL.Os tucanos comemoraram também a filiação nesta semana dos prefeitos das duas maiores cidades da Paraíba: de João Pessoa, Cícero Lucena; e de Campina Grande, Cassio Cunha Lima, que deverá ser o candidato do partido ao governo estadual.O PSDB, no entanto, não foi bem-sucedido na ofensiva para o ingresso do prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi, que continuou no PFL.Na Câmara, os liberais, que haviam perdido poder político na última eleição do comando do Congresso, seguiram uma trajetória inversa à dos tucanos.Na esteira do crescimento da governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), nas pesquisas de intenção de voto, o partido acolheu a filiação de sete deputados nos últimos 30 dias e perdeu apenas dois.A migração fez com que a bancada voltasse a ser a maior da Câmara, com 97 deputados. Os liberais ganharam também a adesão do governador de Roraima, Neudo Campos, que deixou o PPB, levando junto o deputado federal Salomão Cruz.Os outros dois partidos governistas, PMDB e PPB, não tiveram grandes alterações. A bancada do PMDB caiu de 94 para 92 deputados, e a do PPB cresceu de 48 para 51.A preferência popular pelos candidatos de oposição, apontada nas últimas pesquisas, não se refletiu em aumento da bancada oposicionista.Na Câmara, os cinco partidos de oposição ao governo - PT, PDT, PSB, PPS e PC do B - tiveram um déficit de dois deputados, ficando, por enquanto, com uma bancada de 114.No Senado, a oposição acolheu três senadores e perdeu um, crescendo de 16 para 18 integrantes. Mas o PT comemorou o ingresso do prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, em seus quadros.Ele havia saído do PSB depois da filiação do governador do Rio, Anthony Garotinho, e estava sem partido. Com sua filiação, o PT reforça o palanque de Luiz Inácio Lula da Silva em Minas com a força eleitoral de Célio de Castro que deverá candidatar-se ao governo estadual.O resultado mostra que a ofensiva do governo para enfraquecer o pré-candidato do PPS, Ciro Gomes (PPS), surtiu efeito. O partido só conseguiu atrair o grupo político do ex-governador do Rio Grande do Sul Antonio Brito e deve perder neste sábado o seu líder no Senado, Paulo Hartung (ES), que está com ficha de filiação ao PSB pronta para ser assinada."O governo Fernando Henrique está pressionando para que ninguém entre no PPS e, inclusive, patrocinando adesões ao PT para enfraquecer o nosso partido", afirmou nesta sexta-feira o presidente do PPS, senador Roberto Freire (PE).Com o ingresso de Hartung, o PSB completaria a montagem dos palanques estaduais do partido na região sudeste, que tem o maior colégio eleitoral, com quase dois terços dos eleitores do país.Além do senador capixaba, o PSB será um concorrente forte no Rio, com a presença de Garotinho, em São Paulo, com a ex-prefeita Luiza Erundina, e em Minas Gerais, com o deputado estadual e ex-presidente da Assembléia Legislativa João Leite, que saiu do PSDB depois da derrota em segundo turno para Célio de Castro na prefeitura de Belo Horizonte.O PTB e o PL, considerados ambíguos na relação com o governo federal, podem contabilizar ganhos deste último troca-troca partidário.Consideradas legendas sem consistência ideológica, o PTB e PL estão atraindo parlamentares que buscam facilidades eleitorais em seus redutos."Preciso me eleger, mas depois eu volto", foi a senha usada por deputados tucanos para justificar o ingresso nesses dois partidos, formado basicamente por políticos de pouca projeção nacional.Depois de perder meia dúzia de parlamentares nos últimos dois anos, o PTB recuperou o resultado das urnas de 98, quando elegeu 31 deputados. No Senado, os petebistas dobraram sua bancada de dois para quatro senadores.No entanto, o partido teve uma baixa significativa fora do Congresso: o ex-presidente petebista José Eduardo Andrade Vieira deixou a legenda rumo ao PPB do Paraná.O PL, que não tinha representante no Senado, ganhou o mineiro José Alencar, que saiu do PMDB. A expectativa do PL - que tem nos evangélicos sua principal força eleitoral - é chegar até este sábado, último dia para a troca partidária, a 30 deputados.O partido elegeu 12 deputados nas últimas eleições e até esta sexta-feira sua bancada já estava com 22 integrantes.Com o desgaste público, por conta das denúncias de corrupção contra o senador Jader Barbalho (PMDB-PA), e em meio a sucessivos problemas internos, o PMDB viveu semanas de intensa movimentação para manter sua bancada.Todo o esforço da cúpula do PMDB, comandada pelo deputado Michel Temer (SP), foi conter a debandada do chamado grupo ético do partido. Não conseguiu, porém, evitar a saída da ala gaúcha liderada por Antonio Brito.Acompanhando Brito, o senador José Fogaça, filiado ao PMDB há mais de 30 anos, mudou-se para o PPS. O vice-presidente do PMDB, senador José Alencar (MG), também deixou a legenda.Todavia, as articulações de Michel Temer foram decisivas para manter o governador Itamar Franco, de Minas, no PMDB. Pré-candidato à sucessão presidencial, Itamar garantiu alguns compromissos da cúpula para ficar no partido: vai influir na escolha do substituto de José Alencar na primeira vice-presidência do PMDB.Se não conseguir o apoio peemedebista nas eleições prévias marcadas para 20 de janeiro para eleger o candidato presidencial, o governador deverá disputar uma vaga no Senado ou mesmo a reeleição ao governo de Minas, apesar do acordo feito em 98 com o vice-governador Newton Cardoso.A direção nacional do PMDB também obteve uma vitória no Espírito Santo, evitando a saída do senador Gerson Camata e da deputada Rita Camata, que estavam praticamente de malas prontas para o PPS.O casal vai assumir o controle do partido no Estado e, em contrapartida, a Executiva interveio no diretório regional e desfiliou o governador José Ignácio, que havia deixado sob pressão o PSDB.Acusado por denúncias de corrupção, ele perdeu nesta sexta-feira também o apoio do PFL e poderá sofrer processo de impeachment no Estado.Excluído das grandes legendas, José Ignácio está em negociações com o PPB, mas pode acabar no nanico PST para não ficar sem filiação que o impediria a disputar a reeleição.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.